segunda-feira, 23 de junho de 2014

Capitulo 1 - Enrascada



Wilmer Valderrama era um moreno lunático que nas horas vagas fazia papel de veterinário. Demi o adorava. Talvez, se seu coração não tivesse preenchido por J.A., tivesse se casado com ele.
O veterinário chegou no momento exato que Demi e o pai estavam sentados à mesa para jantar.
- Oh, Deus! Torta de maçã! - Wilmer sorriu, com o olhar cravado na delícia que Demi preparara. - Olá, sr. Lovato, como vai?
- Com fome - retrucou Patrick. - E não adianta olhar para minha torta. Não a dividirei.
- Mas você vai me dar um pedaço, certo? - Wilmer inclinou o corpo na direção da mesa. - Quero dizer, considerando que precisa que eu examine seus bezerros, trate daquele touro doente e faça as inoculações, com o recolhimento do gado a caminho...
- Droga, garoto, isso me atingiu a baixo da cintura! - Patrick gemeu.
- Apenas um pedacinho - disse Wilmer. - Com a espessura da lâmina de uma faca...
- Oh, está bem, sente-se. Mas espero que saiba que não dividirei minha torta com qualquer um. E se não parar de vir aqui à noite, sem nenhum motivo aparente, terá de casar com Demi.
- Eu ficaria encantado. - Wilmer piscou um dos olhos negros para Demiella. - É só dizer o dia, querida.
- Seis de julho, daqui a 20 anos - prometeu ela, passando-lhe o milho. - Espero aproveitar a vida antes de me casar.
- Já viveu 22 anos, menina - comentou o pai. - Quero netos. Crianças nesta casa.
- Tenha-as o senhor mesmo - sugeriu Demi. - Venho pensando em me juntar ao Corpo da Paz.
Patrick quase deixou cair a xícara de café.
- Você o quê?
- Isso expandiria meus horizontes. - Sem mencionar que seria uma oportunidade para ela se afastar de J.A., antes que perdesse o controle e desnudasse o coração para ele.
Nesse dia, fora por pouco. Ele parecia suspeitar de toda a atenção que lhe dedicava a se preocupar em não ser capaz de lhe corresponder à afeição. Aquilo vinha se tornando um sofrimento para Demi. Um ano afastada talvez lhe abrandasse a dor.
- Poderia ser morta em um desses lugares estranhos - retrucou o pai conciso. - Não permitirei que vá.
- Tenho 22 anos, lembra? - Ela sorriu. - Não pode me impedir.
Patrick Lovato deixou escapar um suspiro exasperado.
- Quem cozinhará, cuidará da casa e...
- Contrate alguém.
- Claro. - O pai soltou uma risada.
Aquilo a fez lembrar a situação do rancho, e Demi lamentou ter trazido o assunto à tona.
- Não partirei de imediato, papai. E não se preocupe. Tudo irá melhorar.
- Reze para chover - sugeriu Wilmer entre uma mordida e outra. - Todos estão rezando. Nunca vi tantos rancheiros na igreja.
- Já testemunhei rezas que operaram milagres. - E Patrick se lançou nas histórias que mantiveram a mente de Demi afastada de J.A.
Após consumirem metade da torta de maçã, Wilmer e Patrick se levantaram para ir verificar como estava o touro doente.
- Não costumo trabalhar à noite quando posso evitar - disse o veterinário a Demi. - Mas, por uma torta de maçãs como essa, virei fazer o parto de um bezerro às 3h.
- Eu me lembrarei disso - retrucou ela sorrindo.
- Você é uma graça - disse Wilmer. - Estou falando sério. Se algum dia quiser me pedir em casamento, vá em frente. Não farei jogo duro.
- Obrigada. Eu o manterei em mente, junto com minha dúzia de pretendentes - respondeu Demi de modo leve.
- Que tal uma sessão de cinema na sexta-feira? Podemos ir de carro até El Paso e jantar antes.
- Maravilhoso - concordou Demi.
Wilmer era um homem muito divertido, e ela precisava sair um pouco.
- Não estarei de volta antes da meia-noite, acho eu - disse o pai enquanto saía. - Depois que verificarmos como está aquele touro na propriedade de Volturi, quero ver como andam os livros contábeis dele, antes que o cobrador de impostos os encontre. Não me espere acordada.
- Está bem, divirtam-se os dois.
Aquela era uma brincadeira entre pai e filha, por que os livros contábeis de Aro Volturi seriam capazes de confundir até mesmo um advogado. Estava quase na época de declarar o imposto de renda, e Aro era o único contador do rancho.
Deveriam ter contratado alguém mais qualificado, mas Aro era idoso e não conseguia fazer o trabalho externo. Patrick tinha um coração de manteiga. Em vez de deixar o homem por conta da Previdência Social, Patrick o contratara como contador. O que infelizmente significava que o pai de Demi precisava refazer a maior parte dos cálculos na época da declaração do imposto de renda.
O coração mole de Patrick era uma das razões para o rancho se encontrar naquele buraco. Patrick Lovato não herdara o tino para negócios do pai. Sem a assistência de J.A., o rancho teria ido a leilão três anos atrás. E talvez ainda fosse.
Ao lembrar-se de J.A., Demi franziu a testa, girando na direção da porta dos fundos. Estava preocupada com ele. Não parecia muito bêbado quando ela fora ao alojamento mais cedo, e aquilo era algo incomum. As bebidas  anteriores de J.A. mostraram-se formidáveis. Era melhor ver como ele estava, antes que o pai o fizesse à meia-noite.
O alojamento estava cheio. Havia três homens dos novos contratados lá dentro, agora. Mas J.A. não se encontrava entre eles.
- J.A. não nos deu nenhuma dica de onde iria, Srta.Lovato - disse um dos homens. - Mas acredito que tenha ido para o Juárez, pela direção que tomou.
- Oh, Deus! - Demi suspirou. - Ele levou a picape ou seu próprio carro?
- Seu próprio carro... aquele velho Ford.
- Obrigada.
Era uma vantagem que ela soubesse dirigir, pensou, irritada. Qualquer dia desses partiria, e quem cuidaria daquele caubói indômito? O pensamento a deprimiu. Com aquela aparência, J.A. não teria problema algum em arranjar outra pessoa que o fizesse. E sempre teria Blanda.
Demi girou o volante na direção da estrada que levava à fronteira. O guarda que a vigiava se lembrou do grande Ford branco. Não havia muito tráfego, já que aquele era um dia de semana. Ela agradeceu, cruzou a fronteira e dirigiu até encontrar o Ford branco estacionado com a característica displicência em uma vaga. Parou a picape ao lado.
Felizmente não tivera tempo de trocar de roupa. Estava vestindo o jeans, a camisa xadrez, o suéter e as botas. Um traje adequado para sair à noite.
Sentia-se um pouco nervosa, porque não gostava de sair sozinha, depois de escurecer. Muito menos frequentar o tipo de lugar no qual tinha certeza de que encontraria J.A.
Também preocupava Demi a possibilidade de o pai voltar para casa e precisar lhe pedir alguma coisa. A porta do quarto fechada talvez o convencesse de que ela dormia, mas se Patrick desse falta da picape, poderia suspeitar. Ela não queria que ele demitisse J.A. O pai gostava dele, mas se J.A. não lhe contasse por que vinha bebendo, o que decerto não faria, Charlie seria bem capaz de dispensá-lo.
Havia um bar a menos de um quarteirão de onde Demi estacionara. Tinha a intuição de que J.A. se encontrava lá, mas, quando procurou no interior escuro, constatou que a maioria dos homens que lá se encontravam eram mexicanos, com exceção de um ou dois americanos.
Demi caminhou pelas ruas, perscrutando os bares, e quase foi agarrada por um deles. Por fim, desanimada e preocupada, girou para voltar à picape. No caminho, relanceou o olhar ao primeiro bar outra vez. E lá estava ele, inclinado para trás em uma cadeira a uma mesa de canto.
Demi entrou e se encaminhou naquela direção.
- Oh... - J.A. deixou escapar uma palavra que normalmente não diria.
Parecia frio e perigoso naquele momento. Não lembrava em nada o homem acessível de algumas horas atrás. Demi soube que suas velhas táticas não funcionariam agora.
- Olá - cumprimentou ela em tom de voz gentil.
- Se está aqui para me arrastar de volta para o rancho, desista - disse ele com a voz engrolada, encarando-a com os olhos vermelhos furiosos. Sobre a mesa estava uma garrafa de tequila cheia pela metade e um copo vazio ao lado. - Não irei.
- Está quente aqui. - Ela decidiu agir com cautela. - Um pouco de ar fresco poderia ajudá-lo.
J.A. soltou uma risada bêbada.
- Acha mesmo? Suponha que eu apague, menina. Seria capaz de me atirar sobre o ombro e me levar para casa?
Aquilo a magoou. J.A. a fazia parecer uma vaqueira qualquer. Talvez fosse a imagem que tinha dela... como um daqueles homens com quem trabalhava.
Ainda assim, Demi sorriu.
- Eu poderia tentar.
J.A. a estudou com uma brevidade desinteressada.
- Ainda vestindo jeans. Está sempre com roupas masculinas. Tem pernas, garota? Ao menos, tem seios...?
- Aposto que não consegue andar até o seu carro sozinho - interrompeu Demi tentando não corar, porque a voz de J.A. se elevou, e um ou dois clientes do bar os encarava abertamente.
Aquilo o fez estacar e fazer uma carranca.
- Uma ova que não consigo - retrucou ele beligerante.
- Prove - desafiou Demi. - Vejamos se consegue chegar lá sem cair de cara no chão.
J.A. resmungou algo grosseiro e se ergueu, oscilando de leve. Retirou 21 dólares do bolso e os atirou sobre o balcão do bar. O chapéu, enterrado de modo arrogante sobre um dos olhos. O corpo esguio se curvando de leve.
- Fique com o troco - disse ao barman.
Demi congratulou-se em silêncio pela estratégia, enquanto J.A. saía para a rua.
Em seguida, J.A. retirou o chapéu e limpou o suor da testa, relutante.
- Quente - murmurou ele com um movimento negativo de cabeça, a respiração saindo pesada. Girou na direção de Demi, com a testa franzida. - Pensei que iríamos fazer uma caminhada.
- Claro.
- Então, venha cá, doce menina. - J.A. estendeu um dos braços. - Não posso permitir que se perca, certo?
Demi sabia que era a tequila quem falava, mas era tão agradável sentir o braço musculoso pousando em seus ombros, a cabeça de J.A. próxima à sua, o hálito quente contra sua testa... Até mesmo o hálito de álcool não era tão desagradável.
- Tão doce - disse ele em tom sério, afastando-a na direção contrária do carro. - Não quero ir para casa. Vamos passear pela noite.
- J.A, esta parte da cidade é perigosa - começou Demi com voz suave.
- Meu nome... é Joseph - informou ele de repente.
Foi quase um choque saber que ele possuía um nome de verdade. Demi sorriu.
- É bonito. Gosto dele.
- E o seu é Demetria Devonne. - J.A. soltou uma risada rouca. - Demetria Devonne Lovato.
- Sim. - Era uma surpresa constatar que ele sabia seu nome completo. E lisonjeiro.
- Suponha que mudássemos seu sobrenome para Jonas - perguntou ele hesitante. - Claro, por que não? Está sempre correndo atrás de mim,Demetria Devonne Lovato , então por que não se casa comigo e faz a coisa da maneira certa?
EnquantoDemi se recuperava do susto, ele olhava ao redor, oscilando.
- Ahá! Veja, ali está uma daquelas capelas matrimoniais que ficam abertas a noite toda. Venha.
- J.A., não podemos...
Joseph piscou várias vezes diante da expressão aterrorizada de Demi.
- Lógico que podemos. Venha, querida, não precisamos de nenhuma documentação ou coisa parecida. E está tudo dentro da lei.
Demi mordeu o lábio inferior. Não poderia permitir que ele fizesse aquilo, pensou, em pânico. Quando ficasse sóbrio e descobrisse o que fizera, J.A. a mataria. Não era apenas isso. Demi não tinha certeza se um casamento mexicano era legalmente válido. Não sabia o que dizia a lei.
- Ouça...
- Se não se casar comigo... - ameaçou J.A. com astúcia bêbada - entrarei em um bar, atirarei a esmo, e nós dois iremos presos. Agora mesmo, Demi. Neste minuto. Estou falando sério.
Era óbvio que ele cumpriria a ameaça. Certamente, ninguém em posse de suas faculdades mentais os casaria com J.A naquela condição. Portanto, ela o acompanhou, preocupada com como o levaria de volta para casa. Sabia que J.A. possuía uma Arma e licença para usá-la, embora não soubesse se ele estava com a arma. Que Deus não permitisse que J.a. atirasse em alguém!
Demi foi quase arrastada para a capela. Infelizmente, o padre que os casou falava muito mal o idioma inglês, e o espanhol capenga de Demi não foi o suficiente para explicar o que se passava.
Pelo que podia lembrar, J.A. era fluente naquele idioma. Ele interrompeu a explicação de Demi e disse algo que fez o homem baixo sorrir. Em seguida, o mexicano desapareceu para logo surgir em companhia de duas mulheres, com uma bíblia nas mãos. Começou a proferir um discurso rápido em espanhol, induzindo primeiro ela, depois J.a. a dizerem si. Logo depois, sorriu e disse mais alguma coisa.
No segundo seguinte, uma aterrorizada Demi se viu abraçada e beijada pelas mulheres presentes. J.A. rabiscou sua assinatura em um papel e tagarelou um pouco mais em espanhol, enquanto o homem baixo escrevia mais algumas coisas próximo à assinatura.
- Isso é tudo - afirmou J.A. sorrindo para Demi. - Está aqui. Tudo documentado e legal. Beije-me, minha esposa.
Em seguida, ele estendeu o papel na direção dela, respirou fundo e desabou no chão da capela.
Os minutos que se seguiram passaram imersos em um caos. Por fim, Demi conseguiu comunicar à família mexicana que tinha de levar J.A. de volta ao carro. Eles chamaram dois homens mal-encarados, que ergueram J.A. como um saco de ração e o carregaram até o estacionamento.
Demi pediu para que o colocasse na picape. Entregou uma nota de 2 dólares a cada um, o que era tudo o que possuía no momento, e tentou agradecer. Os dois dispensaram o dinheiro, sorrindo, quando perceberam o estado da velha picape do rancho. Boas índoles, pensou ela, comovida. As pessoas pobres sempre se mostravam solidárias. Demi agradeceu mais uma vez, enfiou o documento do casamento no bolso e deu partida na picape.
Não demorou muito a chegar no rancho. O jipe do pai ainda não se encontrava ali, graças a Deus. Ela estacionou a picape próximo ao alojamento, onde não ficava visível da casa, e bateu à porta.
Nick, o novo contratado com quem conversara mais cedo, atendeu. Ao que parecia, ela acordara o homem.
- Preciso que me faça um favor - sussurrou Demi. - Eu trouxe J.A. na picape. Pode atirá-lo em cima do beliche dele para mim, antes que meu pai o veja?
As sobrancelhas de Nick se ergueram.
- Trouxe o chefe na picape? O que há de errado com ele?
Demi engoliu em seco.
- Tequila.
- Uau! - Nick assoviou. - Nunca imaginei que o chefe gostasse de uma bebedeira.
- J.A. não costuma exagerar... Essa foi uma triste exceção. Pode fazer isso para mim? Ele é pesado.
- Claro que sim, srta. Lovato. - O homem saiu e a seguiu, com os pés calçados apenas por meias, deixando a porta do alojamento aberta. - Tentarei não acordar os outros. Estão todos mortos de cansaço. Duvido que acordassem até com o ronco de trovões.
- Céus! Espero que não acordem - disse Demi arrasada. - Se meu pai vir J.A. nesse estado, vai matá-lo.
- Seu pai não gosta de bebida alcoólica, não é? - comentou Nick. - Você me disse isso.
Demi abriu a porta da picape, onde J.A. se encontrava inclinado, roncando. Porém, Nick o amparou, evitando-lhe a queda, e o atirou sobre o ombro. J.A. nem ao menos despertou. Continuou roncando.
- Muito obrigada, Nick. - Demi sorriu-lhe.
- O prazer é todo meu, senhorita. Boa noite.
Demi subiu na picape, estacionou-a nos fundos da casa e disparou pela escada na direção do seu quarto. O pai nem desconfiaria. Graças a Deus!
Dentro do quarto, ela se despiu para colocar a camisola, e o pedaço de papel caiu no chão. Demi o desdobrou e deparou com o seu nome e o de Joseph Adam Jonas junto com várias palavras em espanhol e uma assinatura que parecia oficial.
Não precisou muito para perceber que se tratava de uma certidão de casamento. Demi se sentou na cama, observando o papel. Bem, aquilo não valia mais do que a folha em que estava escrito, graças a Deus. Mas ela não pretendia jogá-lo fora. Nos dias que se seguiriam, poderia sonhar com o que significaria se fosse real. Se J.A tivesse mesmo se casado com ela, se a houvesse desejado e amado.
Demi deixou escapar um suspiro.
Guardou o documento na gaveta e se deitou na cama. Pobre homem, talvez seus fantasmas não o deixassem descansar por um bom tempo. Imaginou o quanto J.A. se lembraria daquela noite, e esperava que não ficasse muito furioso por ela ter ido buscá-lo ou por ter deixado seu velho e dilapidado Ford em Juárez.
Mas talvez, com um pouco de sorte, o carro não fosse roubado, e J.A. poderia pedir a alguém para buscá-lo quando estivesse sóbrio. De qualquer forma, ele tinha de lhe agradecer por ter ido buscá-lo, Demi assegurou a si mesma. Com a chegada do inverno, seria difícil conseguir outro emprego. Não queria perdê-lo. Adorá-lo, mesmo que a distância, seria melhor do que nunca mais voltar a vê-lo. Ou não seria?
[...]
Na manhã seguinte, Demi acordou assustada, com uma forte batida na porta do quarto.
- Quem é? - perguntou bocejando.
- Você sabe muito bem quem é!
J.A.
Ela se sentou na cama no instante em que ele escancarou a porta e entrou. A camisola de Demi era transparente e decotada, e os olhos claros se fixaram rápida e firmemente em seus seios quase expostos, antes que ela tivesse tempo de puxar o lençol até o queixo.
- J.A.! O que está fazendo, em nome de Deus?!
- Onde está? - perguntou ele com olhar frio e letal.
Demi piscou várias vezes.
- Deve me desculpar, mas não costumo ler mentes.
- Pare de brincadeira. - J.a. a olhava como se a detestasse. - Eu me lembro de tudo. Não cometerei esse tipo de erro com você, Demi Lovato. Talvez tenha de me confortar em ser paparicado por você, mas jamais ficarei casado com você quando sóbrio. A certidão de casamento. Onde está?
Aquela era uma oportunidade de ouro. Para resguardar o orgulho de J.A. Para salvar a relação frágil entre os dois. Para se poupar de vergonha de justificar por que o deixaria forçá-la a se casar. Seja firme, menina, disse Demi a si mesma. Aquele casamento não era válido no país, estava quase certa disso, portanto, não faria mal algum se o convencesse de que aquilo não acontecera.
- Que certidão de casamento? - perguntou Demi com olhar surpreso em uma imitação perfeita da inocência.
A resposta o abalou. J.A. hesitou, mas apenas por um instante.
- Eu estava no México. Em um bar em Juárez. Você foi me buscar... e nos casamos.
Os olhos de Demi se dilataram como dois discos voadores.
- Fizemos o quê?
J.A. franziu o cenho. Em seguida, retirou um cigarro do maço que guardava no bolso e o acendeu.
- Eu tinha certeza - disse, devagar. - Fomos a uma pequena capela, e a cerimônia foi toda em espanhol... Depois nos deram um documento.
- O único papel que vi foi a nota de 20 dólares que você deu ao dono do bar - ela brincou. - E se não fosse Justin não sei de quê me ajudar a levá-lo para a cama na noite passada, não estaria trabalhando aqui, J.A. Sabe qual a opinião do meu pai sobre bebedeiras. E você estava realmente bêbado.
J.A. olhou para o cigarro e, em seguida, para ela.
- Eu não poderia ter imaginado tudo isso.
- Você imaginou muitas coisas, ontem à noite. - Demi soltou uma risada, fazendo piada da situação. - Primeiro, disse ser um Texas Ranger no encalço de algum bandido. Em seguida, era um caçador de cobras e queria ir para o deserto caçar algumas cascavéis. Oh, eu o trouxe na hora certa - acrescentou, mentindo entre dentes, com um sorriso bastante convincente.
J.A. relaxou um pouco.
- Desculpe - disse ele. - Devo ter dado muito trabalho.
- Sim, deu. Mas não fez nada de errado. - garantiu Demi e indicou o lençol sob o queixo. - No entanto, se meu pai o encontrar aqui, o tempo vai fechar num segundo.
- Não diga asneiras. - Ele franziu a testa como se a insinuação o ofendesse. - Você não passa de uma garota. Não é nenhuma mulher fatal.
O mesmo que ele dissera na véspera, junto com outras coisas que a deixaram irritada. Mas Demi não podia revelar nada daquilo.
- De qualquer forma, se você e meu pai quiserem tomar o café da manhã, é melhor sair do meu quarto. E por falar nisso, seu carro ainda está em Juárez.
- É impressionante que aquele carro tenha conseguido chegar tão longe - murmurou ele seco. - Muito bem, desculpe pelo transtorno que lhe causei. Ainda tenho direito ao café da manhã?
Relaxando um pouco e satisfeita por não ter de continuar mentindo, Demi retrucou:
- Sim.
J.A. lhe lançou um último olhar severo.
- Tem de parar de tomar conta de mim.
- Essa foi a última vez - prometeu ela com sinceridade.
J.A. deu de ombros, indiferente.
- Claro. - Ele estacou à porta, ainda de costas. - Obrigado.
- Você teria feito o mesmo por mim - retrucou Demi concisa.
J.A. começou a girar para encará-la, mas pensou melhor e deixou o quarto, fechando a porta.
Demi se deixou cair no travesseiro com um profundo suspiro. Levaria aquilo adiante. Agora, tudo o que precisava saber era a implicação legal daquele casamento de mentira.

Notas Finais

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