Demi mal conseguiu dormir. Despertou com uma leve dor de cabeça, que aumentou quando J.A. entrou, sorridente, parecendo um gato satisfeito, com penas de canário saltando por ambos os cantos da boca. Não precisava de uma bola de cristal para saber por que se mostrava tão contente e arrogante. Na certa tivera uma noite escaldante com Blanda.
Mesmo que Demi sempre tivesse suspeitado do tipo de relacionamento que J.A. tinha com a loira, seus sentimentos a sufocavam. Ela o encarou com os olhos quase repletos de ódio.
- O que você quer? - perguntou irritada.
As sobrancelhas espessas se arquearam.
- Café, por ora. E trocar uma palavra com seu pai, antes que você e o veterinário sorridente o levem para a cidade.
Demi contara uma mentira deslavada na véspera, e agora se encontrava atolada nela sem nada para dizer. Sentiu um rubor se espalhar devagar pelo rosto.
Os olhos claros se estreitaram. J.A. empurrou a aba do chapéu para trás e se recostou ao balcão da cozinha, a camisa azul listrada complementando o claro dos cabelos e dos olhos. A perna longa e musculosa foi delineada pelo jeans justo, quando ele mudou de posição.
- Vai levá-lo à parada? - perguntou J.A. em um tom menos beligerante do que na véspera.
Demi negou com a cabeça, limpando a farinha das mãos e sacudindo um pouco que ficara na camisa de brim que usava por cima de uma camiseta de alcinha.
- Por que disse que iria levá-lo? - insistiu J.A.
Demi lhe lançou um olhar furioso.
- Por que você me fez parecer a versão feminina de Jack, o Estripador, ontem à noite, como se eu não me importasse com o próprio pai?
O olhar dele lhe percorreu o corpo e voltaram a encará-la. A inspeção visual fez seus nervos tritarem e berrarem. Nenhum homem nunca a olhara daquela forma, com tanta sensualidade que parecia estar lhe acariciando os seios desnudos. Demi prendeu a respiração.
J.A. lhe capturou o olhar, lendo a resposta lá refletida. Então, Demi não era imune a ele. Podia ser uma mulher experiente, mas também era vulnerável. Um leve sorriso lhe curvou os lábios.
- Sei que gosta do seu pai Demi. Apenas não me agrada a quantidade de tempo que passa com Wilmer.
- Wilmer é...
- Um palhaço - completou J.A. O sorriso esmorecendo. - Muito irresponsável e estourado para uma mulher do seu calibre. Talvez não tenha conseguido satisfazê-la uma vez sequer.
O tom de voz de J.A. não deixava dúvidas a que ele se referia, e ela quase deixou cair o saco de farinha de trigo na pressa em guardá-lo. Demi se manteve de costas para ele, enquanto fazia os pãezinhos, esperando que J.A. fosse embora.
- Ele me faz rir - justificou ela, entre os dentes cerrados.
J.A. se aproximou por trás. Ficou tão próximo que ela podia sentir o calor e a força que ele emanavam, inspirar a fragrância sutil da colônia que usava. Demi sentiu a tensão invadi-la, esperando que J.A. a tocasse, que as mãos longas lhe envolvessem a cintura e a puxassem contra a rigidez daqueles músculos, ou escorregassem por sua caixa torácica até se espalmarem sobre os seios, que latejavam...
- O que está fazendo? - J.A. quis saber.
Demi pestanejou várias vezes. Ele não a estava tocando. Ela sentia a respiração quente na nuca, mas J.A. apenas olhava por sobre seu ombro. E Demi ardia com o desejo de beijar aqueles lábios firmes, tocá-lo, puxá-lo contra o corpo. Teve de trincar os dentes para conter a excitação febril que aquela proximidade criava. Talvez J.A. não percebesse o quanto ela estava vulnerável, e Demi desejava manter as coisas daquela forma.
- Biscoitos. - Céus! Seria aquele sussurro rouco sua voz?
- E presunto? Gosto de presunto defumado.
- Sim, eu sei. Vou fritar um pouco, enquanto os pãezinhos assam. Tem café no fogão, se quiser.
- Percebi. - Mas ele não se moveu.
Demi começou a cortar a massa e alinhar os pãezinhos no tabuleiro à sua frente, mas as mãos tremiam. Aquele homem a atormentava. Ela sentia vontade de gritar.
Demi girou a cabeça, impotente, ergueu o olhar para encará-lo e então percebeu. O brilho do divertimento sarcástico estampado naquele belo rosto foi o suficiente para convencê-la de que J.A. se encontrava seguro do efeito que lhe causava.
- Eu a incomodo? - indagou com a voz arrastada, deixando o olhar baixar de propósito aos lábios carnudos, entreabertos. - Isso não deveria acontecer, se Wilmer fosse suficiente para você.
Com a respiração alterada, ela baixou a cabeça para se concentrar nos pãezinhos.
- Blanda é suficiente para você? - rebateu ousada.
- Quando estou disposto, qualquer coisa com seios é suficiente para mim - disse conciso e irritado com a recusa de Demi em admitir que se interessava por ele.
- J.A.! - disparou Bella virando-se.
As mãos fortes escorregaram de cada lado dos quadris curvilíneos para se apoiarem na mesa, o que a deixou presa entre eles. Os olhos claros ficaram implacavelmente perscrutadores.
- Não quer que eu perceba que se sente atraída por mim. Por quê?
- Isso não é justo - sussurrou ela. - Eu cuidei de você durante anos. Esforcei-me ao máximo para que se sentisse bem, para ajudá-lo sempre que podia. Essa é a forma de me recompensar por ter sido sua amiga?
J.A. a encarou sem pestanejar.
- Já lhe disse que não preciso de uma babá, mas você tem me evitado, e isso não me agrada. Quero saber por quê.
- E é assim que pretende descobrir? - perguntou Demi com a voz levemente trêmula, porque a proximidade daquele homem lhe devastava os sentidos.
- É o modo mais rápido. Tem se afastado de mim desde aquele dia no saguão, Demi. - Os olhos verdes se estreitaram até se tornarem duas fendas cintilantes. - Na verdade, desde aquela noite em Juárez. O que eu lhe fiz? Tentei fazer amor com você?
- Não!
- Então, o que aconteceu? - insistiu J.A.
Demi não podia contar. Deveria, mas não poderia. Baixou o olhar ao peito musculoso.
- Você me disse que eu poderia atirá-lo sobre o ombro e retirá-lo do bar - repetiu o insulto debochado que ele lhe dirigira sem piedade naquela noite. - Que eu não passava de uma garota.
J.A. não se recordava, mas podia ver a mágoa estampada no rosto delgado, e aquilo o perturbou.
- Eu estava bêbado - justificou ele com a voz suave. - Sabe que minhas palavras não foram verdadeiras.
Demi soltou uma risada tristonha.
- Não? Pensei que as pessoas sempre diziam a verdade quando bêbadas, porque perderam a inibição.
J.A. deixou escapar um suspiro lento e profundo.
- O que mais eu falei?
- Isso foi mais do que o suficiente. Tapei os ouvidos para o restante.
- E é por isso que tem me evitado? - insistiu ele, como se aquilo tivesse uma enorme importância.
Na verdade, tinha. Desde então, sentia-se aborrecido. Magoado com aquilo, como raramente se sentira.
Demi hesitou. Em seguida, assentiu.
J.A. abaixou a cabeça e encostou a lateral do rosto no dela, roçando-o de leve. O silêncio na cozinha se tornou pesado com a excitação contida. Demi quase podia ouvir os próprios batimentos cardíacos... ou seriam os dele? Mal conseguia respirar.
J.A. tinha o aroma de colônia e tabaco; o rosto era áspero e quente onde tocava o dela. Ele não tentou beijá-la ou mesmo puxá-la contra si, mas escorregou o rosto para baixo até que Demi sentisse os cílios espessos contra o osso malar, o queixo, a lateral do pescoço. O hálito quente contra os seios, quando ele apoiou a testa em sua clavícula. O nariz tocando a curva exposta do seio, afastando o tecido da blusa para o lado...
- Onde diabos está o jornal?
J.A. ergueu a cabeça quando a voz de Patrick ecoou no corredor. Seus olhos, estreitados em um rosto tão duro quanto o aço, observavam a expressão chocada de Demi. Em seguida, se afastou da mesa, com as mãos pendendo nas laterais do corpo, e baixou o olhar ao decote da camiseta que ela tentava ajustar com os dedos frios.
Demi lhe sustentou o olhar por um longo e devastador momento, antes de girar para o tabuleiro de pãezinhos com as mãos trêmulas e as batidas do coração lhe sacudindo o corpo todo.
- Aí está você. Bom dia, J.A. - cumprimentou o pai com uma risada abafada. - Encontrei o jornal - acrescentou agitando-o em uma das mãos, enquanto se dirigia à mesa e se sentava. - Demi já o havia trazido para dentro.
- Feliz aniversário - disse ela forçando um sorriso. - Estou preparando o desejum.
- Estou vendo. Vou ganhar um bolo?
- De coco. Seu preferido. Além de todos os seus pratos prediletos no jantar.
- J.A., você está convidado para me ajudar a comer tudo isso - Patrick disse, animado.
- Acho que não será possível. - J.A. relanceou um olhar à espinha rígida de Demi. - Vou levar Blanda à parada, e de lá iremos a Juárez, passar o dia fazendo compras.
- Bem, então se divertirá, tenho certeza. - retrucou Patrick arrastando as palavras em meio à atmosfera tensa da cozinha.
- Venha conosco. Você também, Demi - acrescentou ele em tom casual. - Celebraremos seu aniversário no México, Patrick.
- Que ótima ideia! Não tiro um dia de folga desde que consigo me lembrar. Demi também vai gostar. Faremos isso e, à noite, você e Blanda podem vir jantar conosco. Não é mesmo, minha filha?
Demi tinha certeza de que ia morrer. Graças a Deus ninguém podia lhe ver o rosto.
- Claro que podem - afirmou entre os dentes cerrados. - Será muito divertido.
O que mais poderia dizer?, ela imaginou. Afinal, era o dia do aniversário de Patrick. Cabia ele decidir como queria comemorar. Porém, ainda sentia o corpo em chamas pela forma como J.A. a tocara, e o pensamento de vê-lo ao lado de Blanda a fez desejar sair correndo para o pátio aos berros.
- Apenas nós quatro - acrescentou J.A. enquanto se sentava com uma xícara de café em uma das mãos. - Wilmer, não.
Demi engoliu em seco.
- Wilmer não poderia ir. Trabalhará durante todo o dia e parte da noite.
- Pensei que gostasse de Wilmer - comentou Patrick Lovato dirigindo um olhar curioso a J.A.
- Eu gosto. Só não me agrada vê-lo cercando Demi - respondeu, optando pela sinceridade. Em seguida, lançou outro olhar à coluna rígida de Demi e o desviou. - Ela merece coisa melhor.
Patrick soltou uma risada abafada. Agora a tensão que gravitava no ar fazia sentido. Dirigiu um olhar curioso à filha e percebeu o rubor em seu rosto e o modo como Demi se atrapalhava para levar os pãezinhos ao forno. Por um instante imaginou se não havia interrompido alguma coisa quando entrou na cozinha. Mas em seguida, J.A. lhe fez uma pergunta sobre o gado que ele estava vendendo e o assunto foi esquecido.
Os pãezinhos foram devorados em tempo recorde. Demi teve de ser rápida para salvar a menos um para si. O presunto e os ovos mexidos desapareceram em uma velocidade ainda menor.
- Vocês estão aspirando tudo! - acusou ela.
- O que posso fazer se você é a melhor cozinheira desta região? - J.A. a encarou com ar inocente.
- Uma boa cozinheira vale muito mais do que uma mulher elegante - afirmou o pai, sem rodeios. - Tem de se casar com essa menina, J.A., antes que leve suas panelas e frigideiras para outro lugar.
- Papai! - exclamou Demi arrasada, o rosto se tornando lívido ao se lembrar da certidão de casamento na gaveta de sua cômoda.
J.A. franziu a testa. Aquela era uma estranha reação em uma mulher que se mostrara tão responsiva minutos atrás. Demi vinha agindo de modo muito esquisito ultimamente, e ele não acreditava que aquilo se devia apenas ao modo como a tratara em Juárez. Não. Devia haver algo mais. Algumas coisas que acontecera naquela noite; tinha certeza. Mas o quê?
- Não quero me casar, seja com uma boa cozinheira ou uma mulher elegante - murmurou J.A. distraído, franzindo a testa e voltando a se concentrar em passar manteiga em um pão, alheio à expressão estampada no rosto de Demi.
- Não quer ter filhos? - perguntou Patrick curioso.
Demi teve vontade de gritar quando percebeu a forma como aquela questão inocente o afetou. O pai não sabia nada sobre o passado do seu administrador, ao contrário dela.
- Pegue outro pão, papai - interrompeu ela, atirando o prato na direção de Patrick com uma carranca.
Patrick foi rápido em perceber que dissera algo que não devia, e logo quebrou o breve silêncio que se seguiu.
- Onde está o mel? Você comeu todo, não foi? O mel era meu!
- A torta de maçãs é que era sua, papai. Você comeu cada pedaço dela e nem me ofereceu um. Portanto, pode esquecer o mel. É todo meu! - Demi pressionou o pote contra os seios e lhe lançou um olhar furioso por sobre a mesa.
J.A. ficou emocionado com a tentativa de Demi de protegê-lo, até mesmo naquele momento. Observou-a em silêncio, pensando no quanto ela era atraente, com quilos a mais ou não.
Pensando bem, Demi não parecia acima do peso. Tinha a exata aparência que uma mulher deveria ter, macia, curvilínea e doce. J.A. gostava do modo como o cabelo parecia flamejar, adotando uma tonalidade bronze quando tocado pelo sol. Gostava do jeito como Demi falava, sua fragrância.
Muitas coisas em Demi o agradavam. Se não fosse pelas lembranças que o assombravam, as feridas do passado, talvez considerasse se casar com ela. Mas não. O casamento não era algo que cobiçava. Apesar do ciúme que sentia de Wilmer, o veterinário sem dúvida seria melhor para Demi do que ele.
Nunca deveria tê-la tocado. Agora teria de desfazer o erro que acabara de cometer ao perder a cabeça, antes de Patrick entrar. Teria de fingir estar apaixonado por Blanda para afastar Demi. Para se certificar de que ela não alimentasse nenhuma esperança. Amizade era tudo o que tinha a lhe oferecer, e quando mais rápido deixasse aquilo claro para Demi, melhor.
Mas teria de manter as próprias emoções sob controle para conseguir seu intento. Aquela mulher lhe impregnava a mente cada dia mais. Ele dissera e fizera coisas que não pretendia. Flertara com Demi deliberadamente.
Não conseguia entender sua perda de controle ou a repentina fascinação que sentia por ela. Talvez as longas horas de trabalho das últimas semanas tivessem acabado surtindo tal efeito nele.
J.A. franziu a testa estudando o café, que esfriara. Talvez precisasse tirar uma férias. Deus era testemunha de que ele não sabia o que era descanso fazia três anos. Talvez devesse voltar para Jacobsville, Texas, onde nascera, para visitar os três irmãos, que administravam os negócios da família em sua ausência. Talvez fosse melhor tentar encarar o passado, se pudesse.
- Estou perguntando quando pretende partir - questionou Patrick pela segunda vez.
- Por volta das 9h30. - J.A. engoliu o restante do café. - Não queremos chegar atrasados ao desfile.
- Tem certeza de que deseja nossa companhia? - perguntou Demi hesitante.
J.A. se ergueu e lhe dirigiu um olhar zangado.
- Hoje é o dia do aniversário do seu pai. Claro que tenho. Blanda e eu gostaremos de ter companhia. - Os olhos verdes se estreitaram. - Afinal, ficamos a sós a maior parte do tempo. Como ficaremos esta noite, quando eu a levar para casa. Não me importo em dividir a atenção dela de vez em quando.
Patrick soltou uma risada abafada, mas Demi sentiu como se tivesse sido esbofeteada.
Após experimentar o ardor de J.A. minutos atrás, era doloroso ser lembrada de que ele pertencia a outro alguém. Demi se ergueu e começou a retirar a mesa, distraída.
J.A. disparou pela porta sem nem mesmo olhar para trás. Detestava magoá-la. Não deveria tê-la tocado.
Demi demorou a se vestir para sair. Pensara em colocar um de seus vestidos mexicanos coloridos para assistir à parada, com suas profusões de bordados delicados contra o algodão e a renda cor de marfim. Mas se Blanda estaria presente, ela não teria de se preocupar em parecer feminina. Ao lado da loira, sentia-se como um canhão.
Optou por uma calça comprida cinza e uma camiseta sem mangas volumosa, e prendeu o cabelo em um coque austero. Estava com péssima aparência, decidiu ao avaliar o próprio reflexo no espelho, ousando não colocar sequer um pingo de maquiagem. Deus! Aquilo mostraria a J.A Jonas o que ela pensava dele.
E de fato teve aquele exato efeito. J.A. franziu a testa quando pousou o olhar nela, assim como o pai fizera ao vê-la descer a escada.
- O que diabos aconteceu com você? - J.A. também havia trocado de roupa, optando por uma camisa amarela de grife muito elegante, uma calça comprida marrom-clara e um Stetson cor creme empoleirado no cabelo claro.
- O que quis dizer com isso? Estou com a mesma aparência de sempre. - Demi se defendeu.
- Não estava vestida desse jeito ontem à noite - retrucou ele em tom acusatório.
- Ontem à noite, eu me vesti para Wilmer. - Bella o encarou. - Você tem Blanda para se vestir para você - acrescentou em tom de voz sugestivo.
J.A. desviou o olhar, constrangido. Merecera aquilo.
- Está pronto, Patrick? - perguntou ele ao homem mais velho, que também usava trajes informais.
- Preciso apenas pegar meu chapéu. - Antes de se retirar, Patrick relanceou o olhar à filha e franziu a testa. - Poderia ter colocado aquele vestido mexicano. Ao menos, para mim. Acho aquela roupa digna de uma fiesta.
- Não combina com a ocasião - mentiu Demi fitando J.A. - Além disso, pareço um hipopótamo dentro dele...
- Você não parece um hipopótamo - retrucou J.A. irritado. - Meu Deus! Quer parar de repetir que está acima acima do peso? Você está muito bem. Ao menos, parece-se com uma mulher. As pessoas não têm de parar para adivinhar o seu sexo quando passa por elas.
Demi o fitou com as sobrancelhas erguidas. J.A. a olhava, enfurecido. Então, ele se virou de costas no instante em que Patrick se juntou aos dois outra vez.
Demi imaginou se algum dia conseguiria entender aquele homem. J.A. vinha agindo de uma maneira tão estranha ultimamente... como um homem apaixonado. Deixou escapar um suspiro. Talvez fosse apenas uma questão de tempo até que se casasse com Blanda, apesar de ter deixado clara sua aversão ao matrimônio à mesa do café da manhã.
Ela girou para sair e pegou a bolsa a caminho da porta. De qualquer forma, por que J.A. olharia duas vezes para ela com uma mulher tão linda quanto Blanda em seus braços?
A loira os aguardava no Ford de J.A., parecendo entediada e irritada.
- Até que enfim! - murmurou ela. - Está quente aqui fora!
- Desculpe. Tive de procurar meu chapéu - resmungou Patrick enquanto ajudava Demi a entrar no banco traseiro e se acomodava ao lado dela.
- Não quis ser grossa, Patrick - ronronou Blanda, toda sorridente quando J.A. escorregou para trás do volante e ligou o motor do carro. - Sabe que estamos felizes por ter você e Demi conosco hoje. Feliz aniversário!
- Obrigado. - Patrick olhou de relance para o rosto triste da filha silenciosa.
Demi se sentava com a coluna enrijecida ao lado dele, olhando pela janela com expressão vazia. Patrick começava a ter ideia de como Demi se sentia. Se não estivesse apaixonada por J.A., estava representando muito bem aquele papel.
- Bem, à parada - brincou Blanda conferindo a maquiagem no espelho do estojo do pó compacto. - Quer passar um batom, Demi? Não percebi que estava apressando J.A. a esse ponto.
- Não estou usando maquiagem - retrucou Demi. - Mas obrigada.
Blanda lhe relanceou o olhar e deu de ombros.
A parada estava animada e superlotada. A festa do Dieciséis de Septiembre era a celebração anual do dia em que o México se tornou independente da Espanha.
Demi sempre gostara da música, dos carros alegóricos, da atmosfera festiva, mas naquele dia se sentia preocupada. Tratou de estampar uma expressão feliz no rosto para agradar o pai, esperando que ele não fosse capaz de perceber a melancolia que tentava disfarçar. Porém, o óbvio interessante de J.A. em Blanda a estava matando. Ele mantinha um braço possessivo em torno da loira, e em determinado momento inclinou a cabeça e lhe capturou os lábios com um beijo faminto na frente de Demia e de todo El Paso.
Demi se virou de costas para comprar um cata-vento de um vendedor que passava, satisfeita pela distração. Entregou-o ao pai, mantendo os olhos bem afastados de J.A.
- Feliz aniversário, papai - disse ela em um tom suave com um sorriso a lhe curvar os lábios. - Deixei seu presente em casa. Pensei em lhe entregar depois do jantar.
- Isso dará um toque especial ao jantar. - Patrick lhe deu palmadas leves no ombro. - Desculpe-me por isso - murmurou, gesticulando com a cabeça na direção ao casal alheio a tudo ao redor. - Deveria ter recusado.
- Não. Não deveria. É o seu aniversário. - Demi sorriu. - Foi melhor assim. Eu vinha alimentando esperanças vãs com esse homem. É ótimo que eu testemunhe o que ele realmente sente. Sonhos são delicioso, mas não se pode construir um futuro com base neles.
- Tem estado diferente ultimamente, minha filha - disse o pai surpreendendo-a. - Há alguma coisa que queira me dizer?
- Muitas. - Ela dirigiu o olhar a J.A. - Antes, porém, há algo que tenho de contar a ele. Deveria ter lhe dito antes, mas nunca é tarde demais. No momento em que chegarmos em casa, farei a coisa certa. Depois... - acrescentou com um sorriso tristonho. - Acho que precisarei do seu ombro para chorar.
- Está com algum problema sério?
Demi soltou uma risada.
- Não do tipo que está pensando. - Demi suspirou e voltou a atenção à parada. - Tudo ficará bem - tentava convencer a si mesma. - É só uma bobagem. Uma inconveniência à toa.
Esperava que J.A. encarasse pelo mesmo prisma. Tinha de lhe revelar naquele dia, antes que perdesse a coragem. Ele e Blanda estavam se envolvendo cada vez mais, qualquer um podia ver. Não iria permitir de jeito algum que J.A. tivesse de se confortar com um processo de bigamia por causa de seu maldito orgulho. Naquela noite, contaria toda a verdade.
Esperava que tudo terminasse bem.
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