Demi lavou os pratos e limpou a casa. Durante todo o tempo, pensava sobre o convite que J.A. lhe fizera de improviso para que fosse até a plataforma de descarga para ver as novas vitelas chegarem. Provavelmente ele terminaria aquele serviço bem antes do almoço, e não insistiria no convite. Mas Demi foi assim mesmo.
Enquanto cavalgava ,Demi Lembrava que Quando menina, costumava perambular por aqueles Campos, imaginando os bandos de elegantes guerreiros comanches montados em lombos de cavalos. Eles eram conhecidos como a melhor cavalaria ligeira do mundo.Demi podia imaginar as longas viagens de condução de gado, os bandidos mexicanos, como Pancho Villa, e os invasores apaches e yaquis. A imaginação impedira Demi de se lamentar por ser filha única.
Será que J.A. gostava de história? Ela nunca lhe fizera aquela pergunta.
Demi franziu a testa quando a égua apressou o passo à medida que se aproximavam das margens próximas ao que chamavam particularmente de Lovato Creek, um afluente do rio Grande. Aquela área era conhecida por transbordar quando chegavam as chuvas da primavera. Fora dessa época, era o hábitat de criaturas como a antilocapra americana e o veado de cauda branca.
Vez ou outra, Patrick liberava a caça em suas terras, mas apenas para pessoas conhecidas. Como a humanidade havia exterminado a maioria dos predadores que um dia controlaram a população de mamíferos herbívoros, agora tinham de recorrer a meios menos naturais para reduzir o número dos antílopes e veados. Do contrário, o consumo exagerado das pastagens ameaçaria a sobrevivência do gado e dessas próprias espécies.
Demi sentiu o coração subir à garganta quando viu os enormes caminhões ainda descarregando o novo rebanho. J.A., montado sobre a cerca, supervisionava a operação. Ele devia ter pressentido sua aproximação, porque olhou direto na direção dela. Mesmo a distância, Demi viu seu sorriso.
J.A. pulou da cerca e se aproximou, esbelto, alto e perigoso. Ela imaginou se algum dia existiu um homem como aquele. Decerto era o espécime masculino que sempre povoara seus sonhos.
- Quer dizer que decidiu se juntar a nós - brincou ele. - Bem, desmonte, então.
Demi saltou da sela e pousou de pé ao lado dele, as rédeas frouxas em uma das mãos. A égua seguiu, barulhenta, atrás dos dois.
- É uma grande quantidade de gado - comentou ela quando amarraram a égua à cerca, um pouco mais adiante.
J.A. baixou o olhar para encará-la.
- É preciso muito gado para se ganhar a vida, hoje em dia. Sobretudo para rancheiros como seu pai e eu, que não tomam atalhos que prejudiquem a qualidade.
Demi franziu a testa.
- Atalhos?
- Implantes hormonais, superdosagem vitamínica... Esse tipo de coisa.
- Li nos boletins mensais do meu pai que alguns países estrangeiros estavam se recusando a importar gado com implantes hormonais que aceleram o crescimento e a engorda.
J.A. sorriu.
- Vejo que fez seu trabalho de casa. - Ele acendeu um cigarro e empurrou para cima a aba do Stetson marrom-claro desgastado. - É isso mesmo. As pessoas estão ficando mais conscientes com a saúde. Temos de criar gado de corte mais magro, de forma natural, para nos encaixarmos no mercado. Até mesmo os pesticidas que usamos em nossos gramados estão expostos à censura.
- Sem mencionar a marcação do gado - murmurou ela dardejando o olhar na direção dele.
- Não comece - J.A. retrucou em tom de voz suave. - Não é cruel, e é necessário. A marcação a frio não pendurará nem será mais visível depois de mais ou menos um ano. Os brincos podem ser removidos. A marcação a ferro quente é a única forma que um rancheiro possui de proteger seu investimento e marcar o gado com eficácia. Qualquer coisa além disso é um convite aos ladrões de gado.
- Posso ouvir as risadinhas. Ladrões de gado na era espacial.
- Sabe tão bem quanto eu que o roubo de gado é um negócio muito lucrativo, mesmo que praticado com caminhões, e não através de desfiladeiros. Droga! Hoje em dia, recebemos pressões de todos os lados. Talvez chegue o dia em que as pessoas terão de escolher entre comida e um tubo de pasta nutritiva, mas enquanto estiverem dispostos a comer um bife suculento, terão de fazer algumas concessões.
- Ainda assim, acho que os animais não devem ser torturados desnecessariamente - insistiu obstinada. - Não apenas por curiosidade ou para a produção de cosméticos mais seguros para as mulheres.
J.A. soltou uma risada baixa.
- Você e seu coração de manteiga. Se pudesse, transformaria todos os meus novilhos em animais de estimação e daria nome a todas as galinhas, não é? Cem anos atrás, teria morrido de fome, Demi. E terei de lembrá-la de um tempo em que as crianças morriam às centenas ou ficavam aleijadas devido a um número infinito de doenças. Como acha que os pesquisadores encontraram a cura para essas enfermidades?
- Utilizando os animais como experimentos, acho eu - afirmou Demi desconfortável.
- Isso mesmo. Há um século, se não pudesse matar um animal, você morreria de fome. - O olhar de J.a. percorreu a pastagem. - A crueldade faz parte da vida. Goste ou não, você e eu somos predadores, animais. O homem é apenas um espécime selvagem socializado. Ponha-o em um meio ambiente com a barriga vazia e ele matará sempre que for necessário.
- Podemos falar sobre algo menos violento? Seus irmãos são como você?
J.A. girou para apreciar a visão dela, desde o cabelo avermelhado solto até a figura curvilínea trajada em jeans.
- Nicholas, sim - respondeu, por fim. - É o mais velho. Somos parecidos, embora ele seja mais reservado que eu. Kevin é mais próximo da minha idade, mas tem olhos cinzas. Meu irmão mais novo, Frankin, se casou pouco antes de eu vir para cá. A esposa é uma boa moça. O nome dela é Alice.
- Seus pais ainda estão vivos? - Demi quis saber.
- Nosso pai morreu quando éramos meninos. Mamãe ainda está viva. - Pendurou os polegares no cinto largo de couro e encarou Demi. - Ela se chama Denise. - Os olhos verdes se fixaram nos lábios carnudos. - Se tivermos uma filha, eu gostaria de lhe dar o nome da minha mãe. Ela é uma mulher especial. Corajosa, capaz e amorosa. Gostaria de você, se a conhecesse, Demetria Lovato Jonas.
Demi sentiu o rosto queimar. Ele estava muito próximo, e a ameaça que oferecia aquele corpo esbelto e definido a deixava nervosa.
Movendo-se, Demi se afastou um pouco, mas J.A. a acompanhou, o sorriso deixando claro que tinha plena ciência de que a afetava.
- Não serei uma Jonas por muito tempo - disse ela na defensiva.
- Por quanto tempo eu quiser, será - murmurou J.A. - O casamento não é uma brincadeira. Se não queria casar comigo, não deveria ter permitido que a convencesse a entrar naquela capela matrimonial mexicana.
O que ele dizia era verdade, mas Demi não poderia admitir. Enfiou as mãos nos bolsos do jeans para mantê-las paradas. Não conseguia erguer o olhar além do peito de J.A. A camisa era azul listrada, estilo caubói, delineava os músculos exaltados que se encontravam por baixo. Por uma ou duas vezes, ela o vira sem camisa, mas apenas a distância. Não pôde deixar de imaginar como seria de perto e, quando se deu conta do que estava pensando, sentiu o rosto queimar mais uma vez.
J.A. ergueu as sobrancelhas.
- Meu Deus! Estamos perturbados? - brincou ele com um sorriso lento se formando nos lábios finos. - Quer que eu a tire? - perguntou com voz arrastada e suave.
Os olhos de Demi voaram para os dele como uma flecha, mas no mesmo instante se desviaram para o gado. As batidas frenéticas do coração quase lhe sacudiam o corpo, e a boca de Demi ressecou, enquanto procurava uma resposta à altura.
- Eu estava admirando a cor - gaguejou.
- Estava me despindo, você quis dizer - retrucou J.A. com naturalidade, levando o cigarro aos lábios. - Por que não o faz? Somos casados. Não me importarei se me tocar.
Demi ofegou e começou a se afastar, mas ele lhe segurou uma mecha de cabelo entre os dedos, impedindo-a de prosseguir.
- Não fuja de mim - disse ele voz uma voz grave e lenta, que suplantava até mesmo o mugido do gado e os gritos dos vaqueiros próximos, que o descarregavam.
Um grande trailer para trasportar gado fora manobrado de marcha a ré até o local, isolando-os do restante dos homens com sua estrutura volumosa.
- Está na hora de encarar a realidade da nossa situação.
- Nossa situação se resolveria se você concordasse com a anulação. - As palavras quase a sufocaram.
J.A. movimentou a mão, enroscando-a no cabelo castanho-avermelhado. Em seguida, a girou e lhe ergueu o rosto para encará-lo com a pressão que lhe aplicou no cabelo. A íris mostravam um brilho estranho e novo em suas profundezas.
- Anulações são para pessoas que não conseguem resolver seus problemas. Nós vamos dar uma chance a esse casamento. Começando aqui e agora.
- Nós vamos o quê? J.A.!
Notas Finais
Oque será que vai acontece??? kkk hum......

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