O escritório do advogado ficava localizado ao lado de um shopping center que acabara de ser inaugurado nas cercanias da cidade. Demi estacionou em frente à fachada de tijolo cru do prédio onde ficava o escritório, com um profundo suspiro. Temia que aquele encontro não fosse muito agradável.
Entrou e apresentou o documento. O advogado levou algum tempo analisando o que estava escrito na folha de papel. Ele era bilíngue, portanto as palavras que Demi tentara desesperadamente decifrar com a ajuda de um dicionário espanhol-inglês faziam todo sentido para ele.
- Sim, este documento tem valor legal. Posso garantir - ele afirmou, com simpatia, devolvendo-lhe o papel. - Meus parabéns - acrescentou com um sorriso.
- Ele não sabe que estamos casados. - Demi soltou um gemido e lhe contou os detalhes. - Não significa nada o fato de ele estar alcoolizado, na ocasião?
- Se o cavalheiro estava sóbrio o suficiente para concordar com o matrimônio, para participar da cerimônia e assinar o nome no livro de registros de casamentos, então, o documento é válido.
- Nesse caso, terei apenas de conseguir uma anulação.
- Sem problemas - retrucou o advogado, sorrindo. - Basta trazê-lo aqui para assinar...
- Ele tem de saber sobre isso? - Demi ficou horrorizada.
- Temo que sim - respondeu o advogado. - Mesmo que aparentemente ele tenha se casado sem total consciência do que fazia, não há uma forma de anular um casamento sem o consentimento do marido.
Demi enterrou o rosto nas mãos.
- Não posso contar a ele. Simplesmente não posso!
- Terá de fazê-lo. Há uma gama de complicações jurídicas que podem advir daí. Se ele for um homem sensato, na certa entenderá.
- Oh, não, ele não entenderá... - Demi deixou escapar um suspiro exasperado. - Mas o senhor tem razão. Tenho de contar-lhe. E o farei. - Só não sei quando.
Ela ficou de pé e apertou a mão do advogado.
Cometera um grave erro em não contar nada a J.A. quando ele lhe exigiu a verdade. Quisera apenas poupá-lo da vergonha, e não pensara nas consequências de seu ato. Além disso, a ideia de ser esposa de J.A., mesmo que por um curto espaço de tempo, era uma tentação tão doce que não conseguira resistir. Agora confrontava-se com a realidade de seu ato irresponsável, e não sabia o que fazer.
Para começar, Demi evitou J.A. ao máximo. Com o recolhimento do gado a todo vapor e os homens trabalhando desde o nascer do dia até muito depois de escurecer, aquela não era uma tarefa impossível. Passava o tempo livre com Wilmer, desejando em seu íntimo poder sentir pelo veterinário o que sentia por J.A., Wilmer era um homem muito bem-humorado, e ambos tinham muita coisa em comum. Apenas não havia fagulhas elétricas entre os dois.
- Gostaria que não passasse tanto tempo com Wilmer- disse o pai uma noite, ao jantar, após um dia estafante de recolhimento do gado, em uma das raras ocasiões em que estava em casa.
- Ora, ora, está apenas com ciúme porque Wilmer vem comendo todas as tortas de maçã enquanto você trabalha lá fora - provocou Demi.
Patrick Lovato suspirou.
- Não. Não é nada disso. Quero que tenha um casamento feliz, mocinha. Do tipo que eu e sua mãe tivemos. Wilmer é um bom rapaz, mas também é muito dócil. Você o traria em uma coleira ao fim do primeiro ano de casados. Você é irascível, como sua mãe. Precisa de um homem que saiba controlá-la e a quem não possa dominar.
Apenas um homem lhe veio à mente no mesmo instante. Demi corou e desviou o olhar.
- Aquele em quem está pensando já está comprometido - retrucou ela concisa.
Os olhos de Patrick, tão parecidos com os dela, lhe procuraram o rosto.
- Acho que já tem idade para saber por que os homens procuram mulheres como Blanda. Ele é homem. E tem... suas necessidades.
Demi pegou o garfo e fixou os olhos no talher, tentando não sentir mais constrangida do que já estava.
- Blanda é problema dele, como o próprio J.A. me disse uma vez. Não temos o direito de interferir em sua vida particular.
- É uma estranha escolha para um administrador de rancho, não acha? - brincou o pai, ainda a observando como um falcão. - Uma mulher da cidade, sofisticada e divorciada. Acostumada à riqueza e ao status social. Não acha bizarro ela se apaixonar por J.A.?
- Não muito. Ele também é um homem sofisticado, papai. Parece se adaptar perfeitamente em qualquer lugar. Até mesmo em conferências empresariais - acrescentou recordando a conferência a que os três compareceram dois anos atrás.
Demetria e o pai ficaram surpresos com a visão de J.A. em terno elegante, conversando sobre ações, contratos e investimentos com um rancheiro durante o coquetel. Fora uma experiência educativa para Demi.
- Sim, eu lembro - concordou o pai. - J.A. é um homem misterioso. Surgiu do nada... Nunca fui capaz de descobrir o que quer que fosse sobre seu passado. Mas, de tempos em tempos, ele deixa escapar alguma coisa. Não é um homem que desconheça a riqueza ou os altos cargos. De vez em quando, me faz sentir como um novato nos negócios. Consegue manipular ações com mestria. Foi a perícia de J.A. que me permitiu colocar o rancho de volta no azul. Sem mencionar aquelas novas técnicas no manejo do gado que me induziu a experimentar. Transplante de embriões, inseminação artificial, implantes hormonais... Embora nós dois tenhamos decidido de comum acordo suspender o uso de implantes hormonais. Há muitos depoimentos negativos dos consumidores sobre a utilização desse recurso.
- Depoimentos negativos nunca detiveram J.A. - Demi soltou uma risada abafada.
- É verdade, mas ele tem a mesma opinião que eu sobre esse assunto. Se os implantes são um entrave ao consumo de carne, porque as pessoas temem a ingestão de hormônios, representam um entrave ao nosso lucro também.
- Eu me rendo. - Demi ergueu as mãos. - Pode abaixar a arma.
- Desculpe - murmurou o pai, retribuindo o sorriso.
- Na verdade, concordo com o senhor - confessou Demi. - Apenas gosto de ouvi-lo argumentar. Vou sair para dançar com Wilmer na sexta-feira à noite. Tudo bem?
O pai pareceu relutante por alguns instantes, mas não objetou.
- Certo. Contanto que se lembre de que meu aniversário é no sábado e sairá comigo à noite.
- Sim, senhor. Como se eu pudesse esquecer. Trinta e nove anos, certo?
- Cale-se e parta essa torta de maçã! - Patrick gesticulou na direção do doce.
- Como quiser.
Demi tentou não pensar em J.A. pelo restante da semana, mas era impossível evitar um vislumbre ocasional dele montado no cavalo ou indo de um curral ao outro. Deixava o jipe para representantes de outros ranchos da região, que vinham verificar as marcas nos animais para se certificarem de que nenhum exemplar de seu rebanho havia cruzado os limites do território de Lovato. Era um cortesia local, devido à vastidão dos ranchos do sul do Texas.
O pai de Demi administrava mais de 2 mil cabeças de gado e, quando os bezerros nasciam, demandava muito trabalho conseguir marcá-los a fogo, tatuá-los, lhe colocar os brincos nas orelhas e vaciná-los a cada primavera e outono. Era uma tarefa suja, quente e ingrata que fazia os vaqueiros em potencial pedirem demissão e voltarem para o trabalho nas indústrias têxteis e em lojas de móveis. A profissão de caubói, embora romântica e glamourosa para quem a desconhecia, era mal remunerada, estafante e causava envelhecimento precoce. Significava viver com cheiro do esterco do gado, da pele queimada, do couro e da poeira. Passar longas horas sobre uma sela ou consertando o maquinário, as bombas de água e os veículos. Sem contar o tratamento do gado doente.
Havia uma televisão no alojamento, mas raramente os vaqueiros tinham tempo de assisti-la, exceto no fim das tardes de verão. O serviço no rancho se estendia por todo o ano com poucos períodos de calmaria, porque sempre havia algo que necessitava ser feito.
As vantagens daquele tipo de trabalho eram liberdade, a liberdade e a liberdade. O homem vivia próximo à terra. Tinha oportunidade de observar o céu e sentir o ritmo frenético da vida ao seu redor. O estilo de vida que o homem talvez tivesse sido criado para viver, sem a tecnologia estrangulando-lhe a mente, sem os odores e as pressões da civilização a lhe enfraquecer o espírito.
O vaqueiro formava uma só unidade com a natureza e a vida em si. Não era regrado por um relógio despertador ou pela imagem corporativa que um homem de negócios devia ter. Podia não amealhar fortunas, arriscava a integridade física a cada dia, mas era o mais livre que o homem moderno poderia ser. Se fizesse seu serviço com esmero e atenção, teria segurança no emprego para o resto de seus dias.
Demi pensou sobre isso e decidiu que, afinal, ser um vaqueiro não deveria ser tão ruim. Mas o título e a descrição do emprego, embora se encaixasse bem em J.A., pesava de maneira estranha em seus ombros largos. Ele era muito sofisticado para parecer à vontade em jeans empoeirados. Seria mais fácil imaginá-lo em um terno elegante.
Mas, de qualquer forma, ele tinha uma aparência fantástica sobre a sela de um cavalo. Guiava o animal com a destreza de quem havia nascido no lombo de um. J.A. era um homem alto, esbelto e elegante, mesmo quando disparando em um galope.
Demi o vira domar um cavalo para selá-lo mais de uma vez. Observá-lo naquela tarefa fora algo bonito de se ver. J.A. nunca afligia o temperamento do cavalo durante o processo, mas, uma vez em cima do lombo do animal, não deixava dúvidas de quem comandava. Grudava na sela como cola, com o rosto severo e tenso pelo esforço, os olhos brilhando, os lábios finos curvados em um sorriso selvagem, enquanto induzia o cavalo à submissão.
A imagem ficara gravada na mente de Demi e lhe suscitara sensações perturbadoras de outro tipo de conquista. Não era uma puritana e, apesar da inocência, sabia o que homens faziam na cama. No entanto, a sensação, os sentimentos reais que compartilhavam lhe eram estranhos. Imaginava se J.A. seria assim também na cama, se teria o mesmo olhar brilhante, o mesmo sorriso selvagem nos lábios finos quando levava uma mulher ao êxtase sob a força obstinada daquele corpo musculoso e coberto de suor...
O rosto de Demi se tornou escarlate. Ainda bem que não havia ninguém por perto para ver. Ela se precipitou para dentro da casa e subiu a escada, para se vestir para o jantar com Wilmer.
Os dois foram a um restaurante no centro de El Paso, famoso na região pelo tamanho dos bifes que servia e pela vista que provia à noite, por ficar localizado no 14 andar de um hotel conceituado.
- Amo a vista daqui de cima - disse Demi a Wilmer, sorrindo, ao serem guiados a uma mesa próxima a uma das amplas janelas que davam vistas paras as Franklin Mountains.
Na verdade, aquelas montanhas deram nome à cidade, porque o desfiladeiro que separava as Franklin das Juárez Mountains ao sul era chamado de El Paso del Norte - o caminho do norte.
Parte da cordilheira ficava localizada na própria El Paso. A única grande cidade no deserto do Texas compartilhava muito de sua história com a de Juárez, no México, do outro lado da fronteira. Pancho Villa vivera em El Paso depois que foi exilado de seu país.
Historicamente, a cidade do Texas, que ficava assentada na rota de diligências do correio Butterfield Overland na última metade do século XIX, fora palco de ataques de índios. Uma réplica do Fort Bliss servia como marco para indicar onde ficava o posto da cavalaria que um dia lutou contra os apaches, incluindo o famoso chefe Victorio. Atualmente, o Fort Bliss abrigava o maior centro de defesa aérea do mundo livre.
Não muito distante do restaurante, onde Demi e Wilmer jantavam, achava-se o Acme Saloon, onde o matador John Wesley fora morto, alvejado pelas costas.
Como uma marca menos sombria, havia um teleférico até Ranger Peak, que proporcionava aos turistas a vista de 12 mil quilômetros quadrados das montanhas e do deserto. Existiam cem parque em El Paso, sem mencionar os museus, as velhas missões e uma gama de atrações do outro lado da fronteira, na maior cidade fronteiriça do México: Juárez.
Demi vivera próximo a El Paso durante toda vida, e nutria o amor pelo deserto que se originava da proximidade dele. Os turistas podiam ver uma extensão de terras aninhada entre as cordilheiras sem nenhuma vida aparente. Mas Demi via o florescer dos agaves, dos figos-da-índia, dos imponentes cactos da tubulação do órgão, dos arbustos chaparral, das graciosas algarobeiras e o encantamento das cadeias de montanhas ao pôr do sol. Ela amava o deserto que circundava a cidade. Claro que amava sua própria cidade ainda mais. As terras próximas do Fort Hancock, onde se localizava o rancho do pai, eram um pouco mais hospitaleiras do que aquelas, e suas raízes estavam fincadas lá.
- A vista daqui é extraordinária - concordou Wilmer arrancando-a de seus devaneios. - Mas você é uma imagem mais agradável do que as montanhas e o deserto.
No olhar do veterinário via-se a aprovação ao vestido simples Preto com um Sinto e uma Camisa Leva dobrada nos Cotovelos e seu Incomparável chapéu que Demi Escolherá usa. Demi Deixará o cabelo Solto, que lhe destacava as linhas do rosto e o tamanho dos olhos chocolates. Ela usava mais maquiagem do que de que costume e exibia uma beleza genuína. Mas foi a figura de Demi que mais chamou atenção de Wilmer. Vestida daquele jeito, era pura dinamite.
Dilmer-> 


- O que vão beber? - perguntou a garçonete com um sorriso, desviando a atenção de ambos.
- Apenas vinho branco para mim - respondeu Demi.
- Vou beber o mesmo que ela.
A garçonete se afastou, e Wilmer, magnífico em um terno escuro, pousou os antebraços sobre a toalha de um branco imaculado que cobria a mesa e, inclinando-se para a frente, observou-a com olhar afetuoso.
- Por que não se casa comigo, Demi? Tem algo a ver com o fato de eu viver em contato com os animais?
Demi soltou uma risada.
- Amo animais. Mas ainda não estou preparada para o casamento. - E então, ela se lembrou de que era casada, e sentiu o coração perder uma batida.
Demi se recostou no espaldar, sentindo-se um tanto culpada por sair com Wilmer quando era legalmente casada com outro homem. Claro que o marido em questão desconhecia aquele fato. E isso a fez se sentir um pouco melhor.
- Você é uma velha de 21 anos. Antes que se dê conta será tarde para tomar essa decisão.
- Isso não vai acontecer. Ainda não sei nem o que quero fazer da vida.
Aquilo era verdade. Demi nunca cursara uma universidade. De alguma forma, depois que se graduara no ensino médio, assoberbara-se com as exigências dos trabalhos domésticos.
- Gosto de números - murmurou distraída. - Pensei em fazer um curso de contabilidade ou algo parecido.
- Você poderia trabalhar para mim. Preciso de um contador - Wilmer disse no mesmo instante.
- Desculpe, mas papai também precisa. Aro, nosso contador atual, é uma lástima. E, nesse sentido, papai não é diferente. Se eu decidir seguir pelo ramo da contabilidade, pode acreditar que Patrick Lovato será o primeiro a me fisgar. Ele odeia ter de refazer os cálculos de Aro.
- Acho... Ora, ora, olhe aquele vestido!
Não era uma característica de Wilmer mostrar interesse malicioso na roupa de uma mulher. Demi girou a cabeça em gesto discreto para lhe seguir o olhar e sentiu o coração congelar dentro do peito.
Blanda acabara de transpor a porta, trajando um vestido vermelho, com um decote profundo nas costas que se estendia até a altura da cintura e formava um V na parte da frente. A despeito do comprimento, servia como uma propaganda para divulgar sua beleza loira e atraía uma boa quantidade de olhares. Logo atrás dela, encontrava-se um J.A. entediado, em um terno escuro com colete. O rosto de traços bem marcados, exibindo as linhas de fadiga das duas semanas de trabalhos árduo que acabara de concluir. Era quase impossível para Demi desviar os olhos dele.
J.A. devia ter pressentido o escrutínio, pois virou o rosto na direção da mesa que ocupavam e, mesmo a distância, Demi pôde registrar o impacto daquele olhar inabalável. No mesmo instante, ela desviou a atenção para Wilmer e sorriu.
- Acho melhor guardar seus olhares maliciosos para si mesmo - disse ela, mais amável do que desejara. - J.A. é muito possessivo em relação a ela.
- Ele está fulminando você com o olhar. Deveria estar em casa esta noite ou algo do gênero?
- Não. Ele deve estar apenas cansado - enfatizou Demi tentando não se lembrar do último confronto que tivera com o administrador do rancho do pai.
Aquilo lhe fez a pulsação acelerar e o corpo parecer entrar em combustão só de pensar na forma como J.A. falara e nas coisas que dissera. Demi amava tudo naquele homem, mas se as atenções que ele dispensava a Blanda fossem parâmetro, o sentimento não era recíproco.
Demi evitou cuidadosamente relancear olhares na direção dele, alheia à carranca irritada e à postura tensa de J.A. ao jantar.
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