- No encontro da associação dos pecuaristas - respondeu ela, movendo-se com discrição para se afastar da ameaça que aquele corpo forte representava. Girou e entrou na casa, deixando que J.A. fechasse a porta.
- Não vai me dar as boas-vindas? - indagou ele sarcástico.
Demi não lhe dirigiu o olhar. Não suportaria ver a expressão daqueles olhos claros. Começou a se encaminhar à escada, mas ele a segurou pelo braço.
A reação de Demi o pegou de surpresa. Com um repelão ela se soltou e recuou na direção da escada, os enormes olhos escuros acusatórios e assustados.
Os lábios de J.A. se entrabriam para deixarem escapar um profundo suspiro.
- Meu Deus! Não está com medo de mim, certo? - Ele franziu a testa.
- Estou cansada - respondeu ela virando o rosto para o lado. - Quero apenas me deitar. O sr. Hardy disse que você pode ir até o escritório dele e assinar os papéis da anulação na sexta-feira. Dei entrada no processo e arcarei com as custas. Não terá de gastar um centavo. Meu pai está no escritório?
As linhas que vincavam a testa de J.A. se aprofundaram, e ele levou o cigarro aos lábios.
- Está lá fora, no alojamento, conversando com Jed. Não quero que saia com Wilmer enquanto estivermos legalmente casados.
Demi hesitou, mas aquele não era um pedido absurdo. Além disso, estava muito cansada para discutir.
- Está bem. Talvez o processo da anulação não seja longo.
A raiva fez os olhos verdes se estreitarem.
- Está aflita para que Wilmer coloque uma aliança em seu dedo?
- Não vou discutir com você - respondeu Demi com voz calma, esforçando-se para encará-lo.
O olhar de J.A. era perturbador. Fazia o coração dela disparar e os joelhos tremerem.
- Arranjei um emprego - prosseguiu Demi. - Começarei na segunda-feira. Depois, procurarei um quarto para alugar ou algo parecido em El Paso. Você não terá de... Não precisará se preocupar em me encontrar a toda hora.
- Demi!
- Boa noite. - Ela girou nos calcanhares e disparou pela escada até se encontrar em seu quarto.
Em seguida, bateu a porta com as mãos trêmulas, e lágrimas lhe cobriram o rosto pálido. Então, ele estava de volta. E louco para arranjar confusão. O que não era um bom prognóstico para o futuro.
Demi vestiu a camisola, lavou o rosto e se deitou, com um longo suspiro. Esticava a mão para apagar o abajur ao lado da cama quando a porta se escancarou e J.A. entrou, fechando-a em seguida.
Ela congelou com o braço esticado, totalmente ciente da forma como a camisola verde quase transparente lhe delineava o corpo e deixava expostas as curvas generosas dos seios. Com o cabelo solto em torno dos ombros pálidos, parecia muito macia e feminina, e J.A. estava vendo mais do que devia.
- O que você quer? - perguntou constrangida.
- Conversar. - Ele puxou uma cadeira para se sentar ao lado da cama. Havia novas linhas lhe vincando o rosto, e parecia tão cansado quanto ela.
J.A. descartara o paletó do terno, bem como a gravata, e enrolara as mangas da elegante camisa de algodão. O colarinho se achava aberto até a altura da clavícula. Os pelos crespos e negros se projetavam para fora entre os botões abertos, e Demi teve de forçar o olhar a se fixar no rosto dele. Não queria se lembrar da potente masculinidade daquele homem. Ela não era o tipo de J.A. Sabia que ele não a desejava. Tinha de manter isso em mente.
- Sobre a anulação? - Demi, acanhada e hesitante, sentou-se contra um travesseiro e puxou o lençol para cobrir os seios.
Uma ação que o olhar levemente divertido de J.A. não deixou escapar.
Os olhos verdes a devoravam. Nos dias que passara fora, muitas coisas se assentaram na mente de J.A. A depressão em relação à própria situação só persistiu até se lembrar do que Demi devia estar pensando. Foi quando se deu conta do quanto lhe devia.
Ela fora sua melhor amiga desde que chegara ao rancho, mas ele pagara aquela lealdade ferindo-a e fazendo com que se sentisse indesejada. Agora, tinha de consertar o estrago, se fosse possível. Talvez contar-lhe a verdade sobre seu passado fosse um bom começo. Se Demi o entendesse, poderia até ser capaz de perdoá-lo pelas coisas horríveis que lhe dissera antes de partir.
- Não - respondeu ele, após um minuto. - Não quero falar sobre a anulação agora. Quero lhe contar coisas sobre mim.
J.A. se inclinou para trás na cadeira e cruzou as pernas longas, uma sobre a outra.
- Nasci em Jacobsville, próximo a Vitoria. - Ele acendeu um cigarro e pegou um cinzeiro na cômoda. Fez uma careta ao retirar as joias que se encontravam lá e colocou o cinzeiro no colo. - Tenho três irmãos, dois mais velhos e um mais novo que eu. Também trabalhamos no ramo da pecuária, com gado puro-sangue Santa Gertrudis. Nossas propriedades vêm de uma das primeiras concessões de terras espanholas, e sempre fomos ricos.
Demi o observava, atônita diante da revelação.
- Casei-me alguns anos atrás. Estava ficando mais velho e me senti solitário. - J.A. deu de ombros. - Eu a desejava. Minha falecida esposa tinha a mesma idade que eu, e sempre se mostrou uma mulher vivaz. Gostávamos de esportes radicais, como rafting em corredeiras.
Os dedos longos apertaram o cigarro e, de repente, um brilho distante e atormentado se refletiu nos olhos dele.
- Ela ia para todos os lugares comigo. Mas naquele final de semana, eu estava querendo me afastar. Minha esposa tinha a tendência de viver colada em mim. Precisava estar comigo a cada minuto do dia e da noite. Após as primeiras semanas de casamento, chegou a um ponto em que eu não podia ter uma conversa com meus irmãos sem tê-la ao meu lado. O ciúme dela era doentio, mas não percebi isso até que fosse tarde demais. Bem, me escrevi em um passeio de rafting no Colorado, e fui sozinho. No entanto, quando cheguei ao rio, com o restante do grupo, Tanya esperava por mim ali. Nós discutimos, mas de nada adiantou. Ela estava determinada a ir.
J.A. tragou o cigarro.
- O bote inflável emborcou em um ponto perigoso do trajeto, e ela ficou submersa embaixo dele. Procuramos por quase uma hora, mas, quando a encontramos, era tarde demais. - Ele encarou Demia com olhar frio. - Tanya estava grávida de três meses.
- Sinto muito... - disse ela em voz baixa. - Isso deve ter sido o que mais doeu.
J.A. se surpreendeu com a percepção que Demi demonstrava, embora só Deus soubesse por quê. Demi sempre conseguia captar coisas que escapavam às outras pessoas.
- Sim, isso foi o pior - confessou ele. - Nunca consegui saber se ela estava ciente da gravidez ou se não se importava. Minha esposa era um tanto irresponsável. Não era talhada para o casamento. Se tivesse ficado solteira, provavelmente estaria viva.
- Sou fatalista - retrucou Demi com voz gentil. - Acho que Deus é quem determina o dia de nossa morte e as circunstâncias.
- Talvez tenha razão, mas levei três anos para aceitar isso. Herdei a propriedade de Tanya. Ela era tão rica quanto eu. Essa foi uma das razões que me trouxeram para cá. Para recomeçar do nada, com o seu pai. Queria me afastar da riqueza e ver o que eu conseguia construir com meu próprio suor. Herdei a maior parte do que possuo. Tem sido divertido ganhar a vida do meu modo.
- Foi uma experiência salvadora para nós, J.A. Nós lhe devemos muito. Você era um mistério para nós, mas sempre pareceu se encaixar muito bem nesse contexto.
- Exceto um dia por ano - brincou ele pesaroso. - Todos os anos, no dia em que aconteceu, fico transtornado. Não sabia o quanto desejava ter um filho até ser tarde demais.
Demi procurou pelas palavras certas para confortá-lo:
- Você é muito jovem ainda. Pode se casar outra vez e ter filhos - afirmou hesitante.
Os olhos claros se estreitaram.
- Mas eu estou casado. Com você.
Demi sentiu as bochechas queimarem com o rubor. Desviou o olhar magoado para a coberta.
- Não por muito tempo. O sr. Hardy disse que o processo de anulação será simples.
- Gostaria de saber o que aconteceu naquela noite - pediu J.A. após um minuto de silêncio.
- Não muito. Você estava bêbado em um bar, em Juárez. Fui até lá, para trazê-lo para casa. Você fez vários comentários insultuosos em relação a mim e disse que, já que eu parecia estar sempre cuidando de você, devíamos nos casar. Na verdade, ameaçou colocar nós dois na cadeia se eu não concordasse.
As sobrancelhas de J.A. arquearam.
- Fiz isso?
- Sim. Eu não soube o que pensar. Você gritava e parecia estar falando sério. É fácil ser encarcerado nas cadeias mexicanas, difícil é sair delas. Visualizei nós dois trancafiados por meses, enquanto meu pai enlouquecia tentando nos livrar.
- Meu Deus! Por que não me contou isso?
- Você não queria ouvir - Demi respondeu, obstinada. - Estava muito ocupado me dizendo que tipo de mentirosa caça-dotes eu sou!
J.A. deixou escapar um suspiro exasperado.
- Conheci muitas interesseiras, Demi. Até me casar, elas faziam fila na minha porta.
- Nunca fiz fila na sua porta! Eu cuidava de você quando precisava, e gostava de pensar que éramos amigos. Mas era só isso - mentiu, resguardando o que podia de seu orgulho ferido. - Nunca desejei me casar com você!
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