terça-feira, 24 de junho de 2014

Capítulo 2- Mentira

Demi passou metade do dia que se seguiu reunindo coragem para telefonar para um advogado e perguntar se de fato estava casada com J.A.
Tinha de ser cuidadosa. Não podia ser um advogado que a conhecesse, portanto, ligou para um em El Paso, dando um nome fictício á recepcionista. Marcou um horário para aquela tarde, porque o advogado tivera um dos compromissos de sua ocupada agenda cancelado. Demi informou à recepcionista o motivo de sua consulta, acrescentando em tom leve que se casara no México e pensava que a união não era válida no país. A moça riu e comentou que muitas pessoas pensavam da mesma forma, apenas para descobrirem que estavam legalmente  casadas no Texas. Confirmou o horário que Demi havia marcado e se despediu, desejando-lhe um bom-dia.
Colocando o fone de volta no gancho com um baque, ela se deixou afundar na cadeira ao lado da mesa do telefone no corredor. O coração batia na garganta. O advogado ainda teria de analisar o documento, mas ao que parecia a recepcionista estava certa. Legalmente, era a sra. J.A. Jonas. A esposa de Joseph Jonas.
Mas ele não sabia disso.
As consequências de sua farsa poderiam ser trágicas e de longo alcance, ainda mais se J.A. resolvesse se casar com Blanda. Ele seria considerado bígamo sem nem ao menos saber.
O que deveria fazer? Se contasse J.A. agora, após ter negado quando ele pediu que dissesse a verdade, J.A. nunca mais confiaria em nada que ela dissesse. Além disso, ele a odiaria por tê-lo prendido na armadilha de um casamento. Não importava que J.A. tivesse ameaçado colocar os dois na cadeia se ela não concordasse. Ele se encontrava sob o efeito do álcool. Não podia se responsabilizar por suas ações naquele estado. Mas ela estava sóbria. Quando lhe perguntasse por que concordara com tal absurdo, o que poderia responder? Perceberia J.A que ela era vergonhosamente apaixonada por ele?
A pergunta a atormentava, e a fez queimar a refeição. O pai lhe dirigiu um olhar furioso ao morder o sanduíche de queijo quente torrado.
- Tem gosto de carbono - resmungou ele.
- Desculpe. - Demi se esquecera de comprar queijo no mercado, na última vez em que fizera compras, portanto tivera quantidade suficiente apenas para três sanduíches. Ela conseguira queimar os três. Tudo o que pôde fazer foi raspar a superfície tostada e esperar que estivessem comestíveis.
- Esteve preocupada durante toda manhã - comentou o pai observando com atenção o rubor de Demi. - Quer conversar sobre isso?
Com um sorriso frouxo, ela negou com um gesto de cabeça.
- Obrigada, de qualquer forma.
Charlie Swan engoliu mais um pedaço do sanduíche tostado.
- Teria alguma coisa a ver com a ausência de J.A., na noite passada?
Demi o encarou com um olhar inexpressivo.
- O quê?
- O carro dele não estava aqui ontem à noite, e, pelo que sei, um dos vaqueiros o levou até Juárez para pegá-lo esta manhã. - O pai observou o restante do sanduíche com olhar furioso e afastou o prato. - Ele esteve bebendo, certo?
Demi não poderia mentir, mas também não lhe diria a verdade.
- Um dos rapazes disse que J.A. tomou algumas doses em Juárez, mas em suas horas de folga. - Ela se apressou em acrescentar. - Mas não pode escalpelá-lo se ele não fez isso no horário do expediente. Além do mais, J.A. só bebe uma vez por ano.
O pai franziu a testa.
- Uma vez por ano?
- Sim, é o tempo que leva entre uma bebedeira e outra. E, por favor, não me pergunte por quê. Não posso lhe dizer. - Demi pousou com suavidade no braço do pai. - Sabe que devemos o rancho ao tino que J.A. tem para negócios.
- Eu sei - resmungou Patrick. - Mas... danação! Não posso ditar determinada regras para uns e outras para ele.
- Provavelmente, J.A. nunca mais voltará a fazer isso - retrucou ela apaziguadora. - Ora, vamos, você nem mesmo o flagrou bêbado.
O pai fez uma careta.
- Acho que não, mas se um dia isso acontecer... - Patrick meneou a cabeça.
- Eu sei. O senhor o atirará do telhado. - Demi sorriu. - Beba seu café. Ao menos não está queimado. - Demi acabou de tomar o seu. - Eu... uh... tenho de ir a El Paso esta tarde para buscar uma encomenda.
O pai franziu a testa.
- Que encomenda?
- Para o seu aniversário - improvisou Demi.
Não era algo improvável. O aniversário do pai seria dali a dua semanas.
- E o que é? - Demi quis saber.
- Nunca lhe diria.
Diante disso, o pai deixou o assunto morrer e voltou ao trabalho.
Demi tomou um banho e se vestiu para o encontro com o advogado. Jeans e camiseta não eram o traje adequado a uma sentença de morte, pensou com humor negro. Optou por um  shorts da cor preta ,uma blusa branca básica, Alguns Acessórios e por fim um Chapéu . Deixou o cabelo Souto e jogou pra frente. Parecia bem mais madura, decidiu. Fez o melhor que pôde, acrescentando um toque de base e pó no rosto e Óculos,e parou diante do espelho. Se ao menos conseguisse perder peso para ficar com a silhueta mais parecida com a de Blanda...
Com um gemido, enfiou os pés dentro de um par de Sandálias de cor amarela de salto alto, transferiu o conteúdo da sacola para a bolsa que combinava com os Shorts e desceu a escada.
Look Demi: .

Por ironia do destino, deparou com J.A. na varanda da frente. Ele parecia estar de ressaca. A chaparreira que usava se encontrava toda manchada, assim como o jeans por baixo e a camisa de cambraia. O chapéu, antes preto, ficara cinza de tanta poeira. J.A. baixou um olhar zangado para encará-la.
- Wilmer está no curral de contenção - comentou ele com um tom estranhamente hostil. - Presumo que seja essa razão da elegância.
- Vou a El Paso fazer compras - respondeu ela. - Como está sua cabeça? - Era melhor soar normal, decidiu, forçando até mesmo um sorriso.
- Estava ruim o suficiente, antes de tê-la enterrado na lama com bezerros barulhentos - resmungou ele. - Entre um minuto. Tenho de conversar com você.
Demi sabia que o coração parara de bater. Com certo temor, sentiu o calor da mão forte e longa fechada em seu braço enquanto ele a guiava para dentro da casa e fechava a porta. Em seguida, J.A. a soltou quase relutante.
- Ouça, isso não pode continuar, Demi.
- A q... que está se referendo? - ela gaguejou.
- A você me caçando em minhas bebedeiras anuais - retrucou J.A. irritado, tirando o chapéu e passando uma das mãos pelo cabelo claro e suado. - Estive pensando sobre o que poderia ter lhe acontecido ontem à noite, em Juárez. Aquela parte da cidade é perigosa o suficiente durante o dia, que dirá a noite. Eu lhe disse antes e vou repetir: não preciso de babá. Não quero que cometa tal estupidez de novo.
- A solução é simples: pare de beber.
J.A. lhe procurou o rosto erguido e franziu a testa.
- Sim, acho que tenho de fazer isso. Se minha memória está tão deficiente como parece...
Demi teve de reunir todas as forças que possuía para não se trair.
- Seus segredos estão bem guardados comigo - garantiu ela em um quase sussurro, e sorriu.
J.A. relaxou um pouco.
- Muito bem, menina. Vá fazer compras. - Os olhos claros lhe percorreram o corpo de uma forma como nunca antes.
Demi sentiu os joelhos enfraquecerem.
- Algo errado? - Ela quis saber, com voz rouca.
Os olhos de J.A. encontraram os dela.
- Está sempre vestida com calça jeans... Até me esqueci de que você tem pernas. - O olhar de J.A. baixou e um sorriso sensual lhe curvou os lábios. - Lindas pernas, por falar nisso.
Demi corou.
- Minhas pernas não são da sua conta.
Aquilo não o agradou. O olhar cortante de J.A. prendeu o dela.
- Por quê? Pertencem àquele veterinário? Ele age mais como um amante do que um amigo, apesar de você viver negando. - A expressão do belo rosto másculo endureceu diante de Demi. - Você tem 21 anos, como vive repetindo para mim. Já é maior de idade, certo? Hoje em dia, nenhum homem pode esperar que a esposa seja virgem.
A menção à palavra "esposa" a fez empalidecer. Mas não podia permitir que J.A. percebesse o quanto a abalara.
- Isso mesmo. Sou maior de idade. Posso dormir com um homem se eu quiser.
Por um instante, J.A. pareceu letal.
- Seu pai sabe disso?
- O que meu pai não sabe não o aborrece - afirmou Demi constrangida. - Agora, tenho de ir.
Os olhos claros refletiam a raiva que ele sentia.
- Meu Deus! Pensei que fosse antiquada, ao menos nesse sentido.
Aquilo a magoou. Demi baixou o olhar à camisa que ele usava.
- Como vive me dizendo, J.A., minha vida pessoal não é da sua conta. Imagino que você e Blanda não joguem bingo quando se encontram. Nem por isso faço observações maldosas sobre sua moral.
- Sou homem - respondeu ele conciso.
Demi ergueu o olhar em um gesto desafiador.
- E daí? Acha que ser homem lhe dá o direito divino de dormir com quem quiser? Se os homens esperam castidade das mulheres, elas também têm o direito de esperar o mesmo deles!
As sobrancelhas espessas se ergueram na direção do teto.
- Meu Deus! Onde encontraria algum?
- É isso mesmo o que quero dizer. Quem atira lama fica com os dedos sujos. Agora, tenho de ir.
- Se não vai se encontrar com o veterinário bonitão, irá ao encontro de quem, vestida desse jeito?
- São apenas uma saia e uma blusa!
- Não da forma como você as preenche, pequenina - disse ele em tom de voz baixo, o olhar deixando aquilo claro ao lhe percorrer todo o corpo antes de encará-la.
- Estou acima do peso. - Demi deixou escapar.
- É mesmo? - J.A. retirou um cigarro do maço e o acendeu, mas os olhos continuavam fixos nos dela, impedindo-a de desviá-los.
O coração de Demi lhe martelava as costelas, batendo forte e dolorido. Ela entreabriu os lábios, deixando escapar um suspiro trêmulo, e percebeu que apertava a bolsa com tanta força que as unhas produziram marcas no couro macio.
J.A. se aproximou o suficiente para ameaçá-la com o calor e a força do próprio corpo. Era muito mais alto que ela, por tanto, Demi tinha de erguer a cabeça para encará-lo; mais ainda assim, não conseguia desviar o olhar.
O dorso do dedo indicador longo lhe tocou o rosto em uma carícia lenta e devastadora.
- Pensei que fosse totalmente inocente, pequena Demi. Se não é esse o caso, a qualquer instante poderá se ver em uma situação que fugirá ao seu controle.
Demi entreabriu os lábios. Estava se afogando naquele homem, tão inebriada que não se importava com o odor de bezerros e couro queimado que ele exalava. Fixou o olhar na boca firme, nos lábios finos e bem delineados e os desejou com um instinto primitivo. Ocorreu-lhe que podia seduzi-lo e levá-lo para cama. Que poderia dormir com ele. Estavam legalmente casados, embora J.A. não soubesse disso. O delicioso pensamento a fez prender a respiração.
Mas em seguida surgiu o não tão delicioso pensamento do que aconteceria depois. Com a experiência que J.A. decerto possuía, ele saberia no mesmo instante que era virgem, apenas por suas reações. Além disso, talvez ela sentisse dor, o que seria uma prova irrefutável de sua inocência.
E J.A. ignorava que estavam casados. Todos os tipos de complicações poderiam advir daí. Não, pensou, tristonha, não poderia sequer ter aquele consolo. Nem ao menos uma noite para guardar na lembrança. Precisaria mantê-lo a um braço de distância até que decidisse como lhe contar a verdade e que decisão tomar.
Demi recuou alguns centímetros, forçando um sorriso.
- Tenho mesmo de ir - disse com voz rouca. - Vejo-o mais tarde.
J.A. resmungou uma coisa entre os dentes e abriu a porta para ela, os olhos verdes acusatórios, enquanto a observavam partir.
Ela estava se impregnando dentro dele. Irritava-o o fato de o corpo de Demi o excitar, de desejá-la tanto. Enfurecia-o ainda mais saber que Demi era experiente. Não queria que outras mãos a tocassem, muito menos as do veterinário.
Demi cuidava dele fazia tanto tempo que J.A. passara a vê-la com a mesma paixão que um vinicultor dedicava à sua melhor safra. Mas julgara-a virginal, e Demi acabara de revelar que não era. Aquela informação mudava tudo.
J.A. a mantivera fora do alcance durante anos, mas Demi não era inocente, portanto, não tinha de se preocupar com a consciência. Era estranho, pensou ele vendo-a se afastar, mas Demi ainda corava quando seus olhos lhe percorriam o corpo. Talvez não fosse tão experiente, apesar das atenções do veterinário moreno.
Os olhos verdes de J.A. se estreitaram. Wilmer não era um sujeito tão experiente quanto ele; assim, estava em vantagem. Sim, claro que estava.
Levou o cigarro até a boca e exibiu um sorriso frouxo, fitando Demi entrar no velho Lincoln do pai e se afastar.
Felizmente alheia às conjecturas de J.A., Bella conseguiu manobrar o veículo pelo caminho que levava à saída sem bater em nada. As mãos sobre o volante ainda tremiam devido ao inesperado confronto.
Aquela fora a primeira vez que J.A. a tratava com algo parecido com flerte. Talvez devesse ter sido menos enfática sobre sua experiência, que na verdade era inexistente. Porém, sentira-se ameaçada pelo modo como J.A. a olhara. Aquilo lhe embotara o raciocínio.
Por um longo instante, Demi agonizou o pensamento de que talvez ele a retirasse da lista de espécimes perigosos e começasse a tentar conquistá-la. Mas aquilo não era possível. J.A. tinha Blanda para satisfazer suas necessidades físicas. Não escolheria uma inocente igual a ela.
E então, lembrou-se de que revelara não ser inocente. O que faria se J.A. flertasse descaradamente com ela? Amava aquele homem à loucura, mas não se atreveria a deixar que as coisas fossem longe demais entre os dois. Se o pior acontecesse e estivessem de fato casados, poderia conseguir uma anulação sem muita dificuldade. Mas se o recebesse em sua cama, iria ter de se divorciar, e aquele seria um processo muito mais complicado. Não poderia se dar ao luxo de ceder à tentação, não importava o quanto a ideia fosse atraente...


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