Era comum E.C. tomar o café da manhã na companhia de Demi e Patrick, mas nos últimos tempos vinha se mostrando ensimesmado. Ainda assim, Demi não se surpreendeu ao encontrá-lo sentado à mesa da sala de jantar, junto com seu pai, quando desceu para fazer o desejum. O que estranhou foi encontrar comida na mesa esperando por ela, assim como um bule de café fresco.
- Estamos surpresos? - murmurou J.A. Os olhos claros escorregaram, possessivos, pelo corpo dela, coberto com uma calça jeans, uma blusa branca e um pulôver amarelo de tricô. - Achamos que os homens são incapazes?
Demi olhou ao redor para ver com quantas pessoas ele estava falando.
- Engraçadinha... - J.A. soltou uma risada abafada. - Sente-se e coma, antes que esfrie.
Demi se acomodou na cadeira em frente à dele e ao lado do pai. Em seguida, alternou o olhar entre as roupas de trabalho de J.A., em brim e cambraia, e o terno de Patrick.
- Está planejando ser enterrado antes que o dia acabe ou vai a algum lugar, papai?
- Vou ao banco pagar a hipoteca do rancho - informou Patrick hesitante.
- Com que dinheiro?!
- Podemos conversar sobre isso mais tarde - interveio J.A. - Coma os seus ovos.
- Com que dinheiro?! - insistiu ela encarando o pai com olhar furioso.
Patrick tinha uma expressão culpada. Os olhos de Demi se desviaram para um presunçoso J.A., recostado para trás na cadeira, como um conquistador. Ele a observava, com a camisa retesada sobre o peito musculoso e os ombros largos.
- Você fez isso. Deu dinheiro ao meu pai para ele pagar a hipoteca, certo?
- Ele é meu sogro - respondeu J.A. com naturalidade. - Sem mencionar que é meu sócio, também. Vamos providenciar a documentação hoje. Seu pai cuidará disso enquanto estiver na cidade.
- Não irá acompanhá-lo? - perguntou cautelosa.
J.A. deu de ombros.
- Há um novo carregamento de gado chegando. Alguém tem de estar aqui para assinar o recebimento e supervisionar a descarga.
- Gado novo? - Demi sabia que os olhos estavam saltando para fora das órbitas. - Que gado novo?
- Algumas vitelas para acrescentarmos às nossas vitelas de reposição, é só. - assegurou J.A. sorrindo. - Mas teremos dois touros puros-sangues Santa Gertrudis. Meus irmãos chegam amanhã.
- Há outros como você? - Demi pensou em voz alta, recordando a vaga referência que J.A. fizera a eles na véspera.
- Três - lembrou ele.
- Deus nos ajude! São casados?
Os olhos claros se estreitaram.
- Um deles, sim. O mais novo. Os dois mais velhos ainda estão solteiros; e não alimente nenhuma ideia. Você já tem um marido.
- Só até conseguir sua assinatura naquele documento - respondeu ela com voz melíflua.
- E o inferno congelará antes disso - retrucou J.A.
- Não podemos deixar a discussão para mais tarde? - Patrick gemeu. - Quero comer em paz.
- Ele tem razão. Pegue um pouco de molho.
Demi desistiu. Colocou uma colherada do molho vermelho brilhante sobre os ovos e se deliciou com o sabor picante que acrescentou nos ovos mexidos feitos com perfeição. O bacon estava frito no ponto certo, e os pãezinhos, melhores que os dela.
Dirigindo o olhar a J.A., Demi franziu a testa. Sabia que ele, como a maioria dos homens, era capaz de cozinhar quando necessário, mas aquilo superava a média dos homens que não eram chefs renomados.
- Você preparou isso tudo?
- Eu disse isso? - J.A. fez uma expressão inocente.
- Bem, não...
- Foi Sue quem fez - informou Patrick- Achamos que você iria acordar tarde, depois de toda a excitação da noite anterior.
- Excitação... - resmungou Demi. - Primeiro ele quer a anulação, e agora não quer mais.
- Digamos que caí em mim a tempo - justificou J.A. com voz preguiçosa, sorrindo por sobre uma garfada de ovos mexidos. O olhar se fixou nos lábios carnudos e se deteve lá antes de voltar a encará-la. - Sei reconhecer uma boa coisa quando a vejo.
O coração de Demi disparou. Não era justo fazer aquilo com ela.
- Porque precisa de mim para protegê-lo de noivas em potencial? - conseguiu perguntar com voz rouca.
- Porque vou começar um novo ramo nos negócios da família aqui. Muita gente no sudeste do Texas conhece as propriedades Jonas. Muito em breve, irão conhecê-las em El Paso, e passarei a fazer parte da lista de espécimes em risco. E é aí que você entra. Se começar a sofrer assédio das interesseiras, tudo o que terei de fazer será conjurar minha doce e pequena esposa para afastá-las.
- Não sou doce nem pequena. - Demi pousou o garfo. - Sou simplória e gorda, como você mesmo disse.
J.A. contraiu os músculos da mandíbula.
- Espero que não passe os próximos 20 anos atirando isso na minha cara todas as vezes que se irritar.
Demi o encarou até ser obrigada a abaixar o olhar ao próprio prato em um gesto de autodefesa. Aquele olhar penetrante e impassível havia intimidado homens adultos enfurecidos. Ela se remexeu na cadeira.
- Você disse que não queria se casar.
- E não queria. Mas é fait accompli agora. Certo?
- O quê?
J.A. arqueou as sobrancelhas.
- É uma expressão francesa. Significa fato consumado. Suponho que não sabe falar francês. Eu a ensinarei. É uma língua sensual. Assim como o espanhol.
Demi pigarreou e tomou um gole de café.
- Não tenho facilidade em aprender outros idiomas.
- Algumas palavras não lhe farão mal algum. Principalmente... - prosseguiu ele com suavidade. - ... as palavras certas.
Demi percebeu a insinuação, e seu olhar se fixou, impotente, nos lábios finos e firmes de J,A. Sempre imaginara como seria a sensação de tê-los contra os dela. Porém, durante os três anos em que J.A. estivera ali, nunca a beijara, exceto por um beijinho superficial sob o visco na época das festas de fim de ano, tão impessoal quanto um sorriso. Sonhara milhões de vezes com aqueles braços musculosos a envolvendo, com o prazer de ter a boca capturada com paixão febril por J.A. Claro que ela não era o tipo de mulher que inspirava paixão nos homens, como era o caso de Blanda.
Blanda...
Demi pensou na outra mulher e se sentiu incomodada outra vez. Tinha uma boa ideia do que J.A. vira na loira elegante, e imaginou se ele pretendia continuar se relacionando com ela. Aquele casamento não era real. J.A. poderia alegar que ela não tinha direito de lhe ditar as regras, e estaria certo. Eram casados apenas no papel.
Demi pousou o garfo. O apetite havia desaparecido. Se ao menos J.A. a amasse... Se tivesse se casado por vontade própria, e não em um impulso provocado pela embriaguez...
- O que foi agora? - resmungou ele observando a expressão de Demi se alterar. - Parece que está diante do fim do mundo.
- Não consegui dormir - justificou ela na defensiva.
- Sonhando comigo - afirmou J.A. com um sorriso.
Demi lhe dirigiu um olhar enfurecido.
- Não estava sonhando com você!
- Tudo bem. Pode lutar à vontade. Eu vencerei - acrescentou ele erguendo-se e baixando o olhar para encará-la. - E você sabe disso.
Demi não conseguia entender aquela nova atitude de J.A. Tampouco a expressão naqueles olhos verdes. Ela ergueu o olhar, impotente.
- Sentido-se confusa, pequenina? Bem, levará algum tempo, mas um dia você se acostumará com a ideia. Vejo-o mais tarde, Patrick. - J.A. tomou o restante do café que sobrara na xícara, pegou o Stetson e o enterrou enviesado na cabeça, sobre um dos olhos. - Por que não vem até a plataforma de descarga para nos assistir receber o gado, Demi?
Aquele era o primeiro convite daquele tipo que J.A. lhe fazia. Era como se apreciasse sua companhia. Ela não sabia como responder, portanto hesitou.
- Faça como quiser. - Ele exalou um suspiro profundo. - Se mudar de ideia, sabe onde estarei.
J.A. desapareceu pela porta, e Demi trocou um olhar perplexo com o pai.
- O que está acontecendo?
- Que eu seja maldito se sei, exceto que ele sofreu uma mudança de 180 graus. - Patrick meneou a cabeça. - Não posso dizer que lamento em um aspecto. Estas terras pertencem à nossa família desde a época da guerra civil. Detestaria perdê-las por minha incompetência nos negócios.
Demi sabia o quanto aquele rancho significava para o pai, e sentiu uma pontada de culpa por ter se oposto, quando J.A. era a resposta para todos os problemas da família. Mas também era a raiz dos dela.
- O que acha disso tudo? - perguntou Patrick com a voz calma.
Demi escorregou o dedo pela xícara de café.
- Creio que ele está apenas tentando remediar uma situação ruim. Ou talvez imagine que anular o casamento seja uma mácula em sua masculinidade. - Demi deu de ombros. - Talvez a justificativa dele seja verdadeira e queira de fato manter as noivas em potencial afastadas quando todos descobrirem que é rico. Mas eu me sinto desconfortável. J.A. está reagindo com muita tranquilidade para um homem que praguejou como um alucinado quando descobriu o que aconteceu em Juárez.
- Ele esteve ausente por vários dias - disse Patrick pensativo. - Talvez tenha aceitado a situação.
Demi se lembrou do que J.A. lhe contara sobre a esposa falecida e duvidou daquilo. Ele mencionara que queria uma família e que Blanda não estava disposta a formar uma. Talvez apenas estivesse imaginando que Demi se encaixava perfeitamente naquele papel: dona de casa, mãe, cozinheira. Alguém nos bastidores de sua vida, de quem poderia se afastar sem ferir os próprios sentimentos, caso o casamento não desse certo.
Demi sabia que J.A. não a amava. Ele deixara isso muito claro. Podia ser que a desejasse. Não tinha certeza nem mesmo disso, porque J.A. era o tipo de homem que só deixava transparecer em seu semblante o que queria que os outros vissem. Talvez estivesse apenas jogando. Vingando-se.
- Está fazendo de novo, filha.
Demi franziu a testa, com olhar curioso.
- Fazendo o que, pai?
- Cismando. Não faça isso. Viva um dia de cada vez e veja o que acontece.
Demi teve vontade de argumentar, mas não havia razão para isso.
- Está bem - concordou com naturalidade. - Arranjei um emprego.
- Um o quê?
- Um emprego. Bem, quase arranjei. Haverá uma vaga em El Paso, se a recepcionista que acabou de dar à luz não retornar da licença-maternidade. - Demi se admirou do olhar preocupado do pai. - O que há de errado em arranjar um emprego?
- Você tem muito o que fazer aqui no rancho - resmungou Patrick. - Terei de abrir mão de minhas tortas de maçã e dos bolos se você for trabalhar fora. Quem cuidará de mim?
Demi ergueu as sobrancelhas.
- Mas, papai, não posso ficar em casa para sempre!
- Poderia se permanecesse casada com meu genro - retrucou Patrick conciso. - Não há razão para não aceitar. Ele é um ótimo partido. Rico, bonito, inteligente...
- Cabeça-dura, autocrático, insensato...
- E, acima de tudo, gosta de crianças - concluiu Patrick com firmeza. - Gosto de crianças. Teria tido mais filhos se pudéssemos. Nada me agradaria mais do que ver a casa repleta de netos.
- Ótimo. Quando me livrar de J.A. e me casar com Wilmer, nós nos certificaremos de que tenha muitos. Todos morenos. - Demi esboçou um sorriso presunçoso.
- Não quero ter netos morenos! - vociferou Patrick.
- Que pena! - Demi suspirou, terminando de tomar o desejum. - Porque não passarei o resto da minha vida ajudando J.A. a se livrar de mulheres interesseiras.
- Não lhe ocorreu que talvez J.A. tenha outras razões para querer permanecer casado com você? - indagou Patrick após um minuto de silêncio. - Razões de cunho mais pessoal do que as que apresentou?
Demi lhe procurou o rosto.
- Quer dizer que talvez seja por causa da esposa e do bebê?
Patrick assentiu.
- Foi difícil para J.A. perder a mulher daquele jeito, ainda mais quando estava grávida. Posso entender por que ele se sente assombrado. Sei tudo sobre sentimento de culpa, querida. Convivi com essa sensação durante anos, por ter bebido na noite da batida de carro que matou sua mãe. Mas, por fim, aprendi que não se pode viver no passado. Temos de aceitar novos erros e arrependimentos e seguir em frente, J.A. está aprendendo. Talvez também esteja pronto para um começo.
- Pode ser, mas isso não é o suficiente, papai - disse ela aborrecida. - Não posso apenas ser um bálsamo cicatrizante na vida de J.A., entende? Tenho de ser amada, desejada, necessária.
- Com certeza ele precisa de você. Constatamos isso ao longo desses três anos.
- Claro. A velha e boa Demi, mantendo-o longe dos problemas, certificando-se de que levasse a capa de chuva, cuidando das refeições dele... Mas não é disso que J.A. precisa. Ele necessita de uma mulher a quem possa amar. Blanda seria melhor escolha do que eu. Ao menos os dois já têm um relacionamento. J.A. e eu... bem, ele nunca sequer me beijou - resmungou, com um leve rubor.
- Talvez devesse pedir a ele que o fizesse. - Patrick deu uma piscadela. - Apenas para ter uma amostra da mercadoria, por assim dizer.
Demi enrubesceu ainda mais e baixou o olhar ao prato.
- Não quero beijá-lo.
- Não saberá o que está perdendo se não experimentar. Afinal, você viveu como uma santa nos últimos anos, apesar dos esforços do veterinário.
- Você não disse isso a J.A.!
- Ele descobriu por si mesmo - afirmou Patrick com tranquilidade. - J.A. esteve por perto. Até mesmo um cego poderia ver que você vive uma vida de santa. Fica vermelha com muita facilidade.
- Vou besuntar meu rosto com pó de arroz e usar uma máscara sobre os olhos de agora em diante. Pode ter certeza! - Demi mordeu o lábio. - Homens!
- Ora, acalme-se. Queremos apenas o melhor para você.
- E o fato de J.A. poder tirar o rancho do vermelho é a cobertura do bolo, certo?
Patrick exibiu um sorriso apaziguador.
- Não posso negar isso. Esta terra é um legado. Nós a manteremos na família pelos próximos anos, bem como a história que a envolve. John Wesley Hardin dormiu nesta casa. Um grupo de guerreiros comanches invadiu o rancho e matou um dos vaqueiros. A cavalaria costumava acampar nos fundos desta propriedade quando a caminho de várias campanhas em direção a Paso del Norte e de volta para cá. Sim, menina, esta terra é cheia de histórias. Gostaria que seus filhos a herdassem.
Demi esticou o braço e tocou a mão enrugada do pai.
- Entendo isso. Mas o casamento parece ser difícil o suficiente quando amamos o companheiro. Quando não há amor...
- Mas você o ama. Reparei no modo como o olha. A maneira como se ilumina quando vê J.A. Ele não percebe porque não está prestando atenção. No entanto, o fato dele não querer a anulação do casamento lhe dá esperanças, certo?
- Ele não quer este casamento pelas razões certas - gemeu ela.
- J.A. poderia ter escolhido qualquer mulher, não vê?
- Não. Não vejo.
Patrick puxou a corrente de ouro do relógio de bolso e verificou a hora.
- Eu não tenho tempo de fazê-la ver agora. Estou atrasado. Não voltarei para o almoço, portanto, não precisa se preocupar comigo, embora J.A. tenha mencionado que viria almoçar.
- Deixarei alguma coisa na mesa para ele - resmungou Demi.
- Ora, ora. Isso é jeito de tratar o homem que está livrando seu preocupado pai das dívidas?
Demi fez uma careta.
- Acho que não. Está bem. Tentarei parecer agradecida. Agora, se me der licença - disse ela erguendo-se para juntar os pratos. -, tenho algumas tarefas a realizar. E não vou abrir mão daquele emprego, também - acrescentou por sobre o ombro. - Se eles me contratarem, eu irei!
Patrick atirou as mãos para o alto e se encaminhou na direção da porta.
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Beijo JEMI em Breve............
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