Patrick suspirou, olhando ao redor da cozinha rústica e espaçosa.
- Nesse caso, acho que farei uma propaganda discreta. Deus sabe que você não irá muito longe se não tiver um guarda-roupa novo - acrescentou com uma piscada maliciosa.
- Esqueça as minha roupas, pai. Não me importo com o que visto. Não mais - concluiu, girando para ver se o café estava pronto.
- Ainda há Wilmer - disse Patrick tentando confortá-la da melhor maneira que podia, pois a dor da filha era tangível.
- Sim, ainda há Wilmer. Ele me levará a um jantar da associação de pecuaristas na noite da próxima quarta-feira. É um bom homem, não acha?
Patrick a estudou em silêncio.
- Claro que é, mas você não o ama. Não se contente com migalhas, querida. Lute pelo que quer.
Demi soltou uma risada.
- Velhaco... - acusou ela. - Tem mesmo jeito com as palavras.
- E você tem jeito para cozinhar. Poderia se apressar e fazer meu jantar? Estou faminto!
- Certo. - Demi voltou para suas panelas e frigideiras.
Pela janela da cozinha podia ver o alojamento. J.A. saiu de lá de repente, vestindo, entre todos os trajes, um terno completo. Em seguida, caminhou na direção da casa.
Demi lavou o mesmo prato pela quarta vez e esperou ouvir passos na porta da cozinha. J.A. nunca entrava pela porta da frente. Era como se fosse um membro da família. Mas, no momento, era seu pior inimigo.
O terno a incomodou. Pretendia pedir demissão? J.A. a odiaria tanto assim?
Sem bater na porta, ele entrou, trazendo consigo uma lufada fria de vento que a fez estremecer.
- Está esfriando lá fora - comentou Patrick para abrandar a tensão repentina.
- Mais do que pode imaginar. - J.A. tinha um cigarro aceso em uma das mãos. Ergueu-o até os lábios, enquanto lançava um olhar fulminante a Demi. - Ficarei fora até o início da próxima semana. Tenho alguns assuntos pessoais a tratar. Incluindo... - acrescentou em tom de voz frio. - ... dar entrada na anulação. Quero a certidão de casamento.
Demi limpou as mãos no avental, mas não o encarou.
- Vou buscar - disse ela em tom de voz brando, antes de se precipitar pela escada.
As mãos tremiam quando Demi retirou o pedaço de papel da gaveta da cômoda e pousou os olhos nele. J.A Jonas. O nome que constava na certidão era Joseph Adam Jonas. Joseph. Nunca o havia chamado de outra coisa que não J.A. Até aquela noite em Juárez, não sabia o que as iniciais significavam. Agora, dizendo o nome para si mesma, lamentou pelos sonhos contidos naquela simples folha. Se ao menos as coisas tivessem sido diferentes e J.A. houvesse se casado com ela por amor...
Demi observou o papel por um último e longo instante, antes de levá-lo consigo.
J.A. a esperava ao sopé da escada, sozinho. Os olhos verdes se cravaram em seu rosto, mas ela não ousaria encará-lo. Estendeu o papel com os dedos frios e trêmulos até que J.A. o pegasse, e logo recuou a mão para não tocar a dele. Tinha certeza de que no momento, para ele, seria como encostar em um leproso.
- Sinto muito - disse Demi com a voz rouca encarando as próprias botas. - Foi apenas...
- Uma paixonite desenfreada que fugiu ao controle - terminou ele. - Bem, acabou de queimando, certo? Você é maquiavélica, mentirosa e provavelmente uma caça-dotes.
Grossas lágrimas banharam os olhos de Demi. Ela não respondeu. Limitou-se a passar por ele, mal conseguindo enxergar o chão ao voltar para as panelas e frigideiras que estavam no fogão.
J.A. apertou a certidão de casamento entre os dedos, odiando a si mesmo e a Demi também. Sabia que a estava ofendendo e sendo insensato, mas ela o induzira a se casar quando estava bêbado demais para saber o que fazia. Julgara-a uma pessoa melhor. Demi não tinha o direito de envolvê-lo naquele apuro. Saíra com Blanda, havia... E estava casado! E se tivesse decidido se casar com Blanda? Teria cometido um adultério involuntário e seria bígamo, tudo de uma só vez!
- Demi está pagando um preço alto - afirmou Patrick, calmo, se juntando a ele no saguão. - Não torne as coisas mais difíceis para ela. Minha filha não fez isso de caso pensado, independente do que ache.
- Ela deveria ter me contado - retrucou ele conciso.
- Sim - concordou Patrick. - Deveria. Mas ela não sabia. Não pensou que o casamento fosse válido. E Demi tem a seu favor o fato de ter consultado um advogado para conseguir uma anulação rápida e discreta, mas descobriu que para tanto precisaria de sua assinatura.
- Você sabia de tudo? - perguntou J.A.
Patrick fez que não com a cabeça.
- Só soube hoje. Achei que Demi estivesse passando por algum problema, mas não sabia qual.
J.A. baixou um olhar furioso ao papel que tinha nas mãos. Casamento. Uma esposa. Não podia esquecer Tanya, não podia apagar da lembrança a sua determinação em descer aquele rio com ele. Ela sempre fora obstinada, empenhada em fazer tudo a seu modo. Ele poderia ter insistido, ainda mais por ela estar nauseada e tonta nos últimos tempos. J.A. não sabia que estava grávida. Fora devastador o suficiente ter de reconhecer o corpo da esposa, mas saber que Tanya esperava o primeiro filho dos dois...
J.A. deixou escapar um gemido alto. Ele a matara. Sua fortuna estava ligada à ela, um empreendimento conjunto de sucesso na ciência de transplante de embriões. Ficara muito abalado para retomar as rédeas dos negócios, e deixou os irmãos mais velhos no comando e o mais novo ajudando, enquanto saía à procura de paz de espírito.
E a encontrara ali. Gostara de ajudar Patrick, que estava quase pedindo concordata, a reconstruir o rancho. Agradara-o a companhia alegre e complacente de Demi. E agora, ela o apunhalara pelas costas. Tinha de se afastar. Dela e das lembranças que lhe trouxera outra vez.
- Para onde vai, J.A.? Ou essa é uma pergunta que não devo fazer?
- O que quer dizer com isso?
Patrick deu de ombros.
- Demi disse que pode ser que você seja rico. Você deixou escapar muitas coisas uma vez, quando estava delirando de febre e ela cuidava de você. Minha filha acha que talvez esteja se punindo pela morte de sua esposa, e que foi isso o que o levou a permanecer aqui.
J.A. não respondeu. Patrick ergueu uma das sobrancelhas.
- Seja qual for a razão, é bem-vindo neste rancho. Sou agradecido por tudo o que fez por mim.
J.A. sentiu as portas se fechando. Patrick falava como se ele não fosse voltar. Relanceou o olhar à cozinha, mas Demi não estava visível daquele ponto. Experimentou uma repentina pontada de pânico diante da probabilidade de não mais voltar a vê-la. Deus, o que havia de errado com ele?
J.A. dobrou a certidão de casamento.
- Não sei o que farei. Talvez vá para casa, ver meus parentes. Tenho de marcar um horário com um advogado para resolver isso - acrescentou, mostrando o papel.
Era estranho como aquele documento se parecia mais com um tesouro do que um laço jurídico indesejado.
- Se decidir não voltar, não o culparei - Patrick afirmou, com expressão cansada. - Não há muita esperança para este lugar, e ambos sabemos disso. Você nos tirou do vermelho, mas o preço do gado está em baixa, e tive de me endividar para comprar mais equipamentos. Estou ficando velho demais para isso.
Aquilo não soava como Patrick, e J.A. franziu a testa.
- Meu Deus! Você mal completou 55 anos!
- Espere até ter 55 anos para dizer isso. - Patrick soltou uma risada abafada. Em seguida, estendeu a mão, e J.A. a apertou. - Obrigado por ter me ajudado a manter o rancho. Mas você tem sua própria vida. - Seus olhos se estreitaram. - Talvez esteja na hora de enfrentar seus fantasmas, filho. Tive de fazer isso, quando consegui resolver minha questão com a bebida e encarar o fato de que isso me custou a vida da mãe de Demi. Eu sobrevivi. Você também conseguirá.
- Tanya estava grávida - revelou J.A. conciso.
Patrick anuiu.
- Isso deve ter sido o pior para você, imagino. Mas é um homem jovem. Ao menos relativamente. Poderá ter outros filhos, um dia.
- Não quero ter filhos. Tampouco uma esposa - respondeu ele sacudindo a licença de casamento. - Muito menos uma que não escolhi!
Na cozinha, Demi ouviu aquelas palavras, e as lágrimas rolaram, silenciosas, por seu rosto. Lembrou-se do que ele lhe dissera em Juárez, sobre ela ser roliça e simplória. Aquilo certamente apagava todos os elogios que ele lhe fizera antes, afirmando que seu corpo tinha formas femininas. Agora, achava apenas que ela era gorda. Demi desejou abrir um buraco no chão e se enterrar.
No saguão, Patrick podia imaginar o sofrimento da filha. Guiou J.A. até a porta da frente em vez de deixá-lo sair pela cozinha, para poupar Demetria de mais uma angústia.
- Tire alguns dias de descanso - sugeriu Patrick. - Você teve duas semanas de trabalho árduo, e não tira férias de verdade há três anos. Algum tempo de folga é o que está precisando.
J.A. relaxou um pouco.
- Creio que estou precisando disso, mesmo. - Baixou o olhar à certidão de casamento dobrada e, em um gesto involuntário, dirigiu-o ao saguão.
Fora mais severo do que deveria com Demi. Franziu o testa ao recordar o que lhe dissera. Em alguns aspectos, ela era pouco mais que uma criança. J.A. começava a imaginar se a experiência sexual que alegava não passava de um embuste. A forma como reagira à sua carícia, na cozinha, naquela manhã, não era indicativo de experiência. Teria mentindo sobre isso também?
J.A. contraiu os músculos da mandíbula. Nunca mais seria capaz de confiar nela. Se mentira uma vez, o faria de novo. Deus! Por que Demi fizera isso com ele?
- Vá - disse Patrick, com gentileza, tentando evitar novas explosões de raiva. - Posso cuidar de tudo até você voltar. Ou até encontrar um novo administrador. Não quero pressioná-lo.
J.A. franziu a testa, pensando em algo que Patrick dissera.
- Você falou que ela sabia que eu era rico.
Patrick fez uma careta.
- Sim, falei. E Demi tinha certeza de que você pensaria que ela se casou com você por causa disso. - Ele fez um movimento negativo com a cabeça. - Está se esforçando ao máximo para pintá-la como um demônio, certo, filho?
J.A. pestanejou várias vezes. Estaria? Começou a se afastar, impaciente.
- Manterei contato. Desculpe-me por deixá-lo quando está precisando de mim. Deus sabe que não tem culpa de nada.
- Tampouco Demi - afirmou Patrick enigmático. - Quando quiser saber de toda história, ouça a versão dela. Mas esfrie primeiro. E faça uma boa viagem.
J.A. começou a dizer algo, mas voltou a fechar a boca.
- Cuide-se, e feliz aniversário. - J.A. retirou um pequeno pacote do bolso interno, e o deu a ele. - Gostaria que tivesse sido uma comemoração e tanto.
- Ficarei com um bolo de coco inteiro para mim - lembrou Patrick sorrindo. - Nada me faz mais feliz do que não ter de dividi-lo com ninguém.
J.A. soltou uma risada abafada.
- Está bem. Nós nos veremos.
- Assim espero - acrescentou Patrick entre dentes, depois que ele partiu.
Em seguida, abriu o pacote. Era um alfinete de gravata de ouro com uma cabeça de bezerro. Um sorriso lhe curvou os lábios. Só J.A. para escolher algo que realmente o agradaria.
Patrick retornou à cozinha, hesitante em se aproximar da filha. Mas ela parecia calma, colocando a comida nos pratos.
- Está pronto para comer? - perguntou Demi, animada.
Apenas o leve avermelhado dos olhos revelava o sofrimento que enfrentara naquele dia.
- Claro. Você está bem, querida?
Demi assentiu.
- Muito bem. Só uma coisa: não quero mais falar sobre isso. Nunca mais. Combinado?
Patrick concordou. E então, Demi voltou a ser a mesma, ao menos na fachada.
O que o pai não poderia ver era a agonia sob a expressão calma e a dor que lhe dilacerava o coração. Não estava tão segura de seu amor por J.A. naquele momento. Um homem capaz de tanta crueldade não merecia ser amado.
E ele fora o culpado. Fora J.A. quem a obrigara a se casar, mas fez parecer como se ela tivesse lhe preparado uma armadilha! Bem, resolveriam isso quando ele voltasse. Nunca mais J.A. teria de se preocupar em ter seu coração aos pés dele.
Demi serviu os pratos favoritos do pai e lhe entregou seu presente: um cachimbo novo e um isqueiro especial para acendê-lo, acompanhado de um enorme pedaço de bolo de coco. Conjurou uma expressão feliz, esperando que Patrick não conseguisse enxergar a verdade. Não queria estragar a restante do aniversário do pai.
- Só tem uma coisa em que talvez deva pensar - disse Patrick mais tarde, antes de ela ir se deitar. - Um homem que foi fisgado contra a vontade não desistirá sem lutar.
- Eu não fisguei...
- Você não está escutando. Refiro-me a um homem que luta contra os próprios sentimentos. Acho que J.A. tem uma queda por você e não quer admitir isso. Ele não aceitará isso passivamente. Vai tornar sua vida um inferno até aceitar.
Mas Demi não era inocente a ponto de ousar sonhar outra vez. Não suportaria outra decepção amorosa.
- Eu não o quero mais - afirmou sem inflexão na voz. - Deveria ter me casado com Wilmer. Ao menos ele não grita comigo ou me acusa injustamente. É um homem divertido, e, mesmo que não o ame, eu gosto dele. E com certeza não gosto de J.A Jonas!
- Não se case com um homem para tentar esquecer outro - Patrick a aconselhou. - Tudo o que conseguirá será trazer sofrimento a Wilmer e a si mesma.
Demi suspirou.
- Acho que tem razão. Mas talvez aprenda a amá-lo. Eu me esforçarei ao máximo para amá-lo. Espero que J.A Jonas não volte nunca mais!
- Deus me livre. Se isso acontecer, o rancho irá para o buraco. - Demi soltou uma risada abafada.
Demi atirou as mãos para o alto e subiu a escada.
Mas aquela noite não conseguiu dormir. Imaginou se algum dia conseguiria. Sentia-se arrasada, ouvindo as palavras enfurecidas de J.A. toda vez que fechava os olhos.
Por fim, desistiu de tentar adormecer, levantou-se e limpou a cozinha até o dia amanhecer. Um exercício que se provou eficaz para manter a mente longe de J.A. Ao menos por dois minutos.
Quando Patrick acabou de tomar o desejum, Demi já se vestira para ir à igreja. O pai não disse uma palavra. Foi para o quarto, vestiu um terno, e os dois foram de carro até a igreja metodista, que ficava oito quilômetros adiante na estrada.
Quando voltaram para casa, com Demi ainda macambúzia e reservada, viram o carro de Wilmer Valderrama estacionado diante da casa da frente. Ela desceu do veículo e correu na direção do veterinário o mais rápido que as pernas lhe permitiram.
Observando aquela cena, Patrick franziu a testa. Problemas despontavam no horizonte, e ele imaginou aonde aquela nova complicação iria levá-los.
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