Wilmer se mostrou perplexo quando Demi lhe contou o que estava acontecendo. Haviam acabado de comer um almoço frugal, e Patrick trazia a bandeja de café para a sala de estar decorada em estilo colonial americano, onde se encontravam sentados.
- Você está casada? - Wilmer gemeu.
- Não de verdade. - Demi se apressou em responder. E o colocou a par dos detalhes, beliscando o tecido da saia, para não encará-lo. - Portanto, como pode ver, é válido apenas no papel, e só até que eu consiga anulá-lo.
- J.A. sabe disso, suponho - insistiu Wilmer.
- Deus! Claro que sabe - Patrick Lovato resmungou, pondo a bandeja na mesa de centro. - Se algum dos dois quiser creme, é só pegar.
- E o que ele disse? - indagou o veterinário, ignorando Patrick.
- Coisas que não podemos repetir na presença das damas. - Patrick exalou um suspiro.
- Ele ficou furioso. - Demi baixou o olhar à saia mais uma vez. - Acho que não posso culpá-lo. J.A. não sabe de toda a história, e eu estava muito aborrecida para fazê-lo escutar. De qualquer forma, não importa - acrescentou, pesarosa. - J.A. afirmou que não queria ficar casado com uma pessoa como eu.
- J.A. estava em estado de choque - disse Patrick, obstinado, dirigindo o olhar à cabeça de Demi, que a filha mantinha baixa. - Um homem precisa de tempo para se ajustar a uma notícia como essa.
- Quanto demorará para anular o casamento, Demi? - Wilmer quis saber.
- Descobrirei amanhã pela manhã. Vou consultar nosso advogado. Talvez não seja um processo demorado. Só Deus sabe o quanto J.A. o apressará. Espero que eu não precise da certidão de casamento - acrescentou ela franzindo a testa. - J.A. a levou.
- Para onde ele foi? - perguntou o veterinário.
- Quien Sabe? - Patrick deu de ombros.
- Ao menos, não é um casamento de verdade - comentou Wilmer com voz suave, dando palmadinhas na mão que Demi mantinha sobre o colo. - Você me deu um tremendo susto.
- Bem, esse casamento só existe na teoria, portanto, pode relaxar - garantiu Demi. - Beba o seu café. Depois poderemos ir cavalgar. Preciso sair um pouco de casa.
- Boa ideia - Patrick deu seu apoio. - E eu posso começar a verificar os livros contábeis.
- É domingo, papai!
- Sei disso. Comerei meu bolo enquanto trabalho nos números. Isso tornará tudo mais agradável. Além do mais... - Patrick soltou uma risada maliciosa. - Já fomos a igreja.
Demi jogou as mãos para o alto e se retirou para trocar o vestido por uma calça jeans e uma camisa.
Wilmer ficou até tarde, e Demi se sentiu feliz com a companhia do veterinário.
Passou outra noite maldormida e, bem cedo, na manhã seguinte, saiu para consultar o advogado da família.
O sr. Hardy era um homem rude, de 60 anos, mas sob a postura formal, acentuada pelos óculos de grau, era o melhor amigo que a família Lovato possuía.
- Não está com a certidão, certo? - murmurou o advogado quando Demi concluiu a história. - Não importa. Vou dar entrada no processo e providenciar os documentos da anulação. Peça a J.A. que venha assiná-los na sexta-feira. Enquanto isso, não se preocupe com nada. São coisas da vida. Mas, se eu fosse ele, me manteria longe da bebida alcoólica - acrescentou em tom de voz seco.
Demi sorriu.
- Tentarei garantir que ele faça isso - retrucou gentil.
Pronto, disse Demi a si mesma, estava feito. As engrenagens se achavam em pleno em funcionamento. Logo voltaria a ser a velha e simples Demi Lovato, e não Demi Jonas.
O pensamento a deprimiu. Desejara tanto manter aquele nome, que aquele casamento fosse real e espontâneo... Mas J.A. não fizera segredo de sua opinião sobre o assunto ou de sua patente aversão a tê-la como esposa. Demi imaginou se algum dia seria capaz de esquecer as palavras ofensivas que ele lhe dirigira.
Em um impulso, parou no escritório da Secretaria Municipal do Trabalho, para ver quais vagas estavam sendo oferecidas para mulheres com o mínimo de conhecimento em datilografia. O destino lhe sorriu. Havia uma vaga de recepcionista em aberto em uma companhia de seguros local. Demi pediu informações sobre a vaga e foi contratada. Teria de começar na segunda-feira da semana seguinte, dali a sete dias, se a valiosa recepcionista que ocupava atualmente o cargo decidisse não retornar da licença-maternidade. Não poderiam recusar se ela quisesse o emprego de volta, mas prometeram avisar Demi se não precisassem dela.
Bem, se não conseguisse aquela vaga, procuraria outra oportunidade, prometeu a si mesma. Recusava-se a permanecer o tempo todo no rancho depois daquele fiasco. Todas as vezes que pousasse os olhos em J.A., abriria a ferida em seu coração. E se ele troçasse ela, fazendo piadas com aquele quase casamento, seria insuportável.
Era provável que ele ainda a odiasse. Aquilo tornaria tudo mais fácil. Patrick precisava dele, portanto, Demi não podia exigir que J.A. fosse demitido. Teria apenas de descobrir a melhor forma de resolver aquele dilema para todos os envolvidos.
Apesar da mágoa, amava J.A. mais do que a própria vida. Poderia sair do rancho, encontrar um quarto para alugar e um emprego em El Paso. Daquela forma, o pai teria como manter seu tão necessário administrador, e ela conseguiria sua paz de espírito. Além do mais, Wilmer vivia em El Paso. Ele poderia tomar conta dela. Talvez até Demi se casasse com Wilmer, um homem gentil e que gostava dela. Sem dúvida seria melhor do que viver sozinha.
Porém, na tarde de quarta-feira, J.A. ainda não havia voltado.
De noite, Wilmer a levou a um encontro da associação dos pecuaristas. Tratava-se de um jantar, e Demi apreciou não só a comida como também a discussão que se seguiu sobre os métodos de aperfeiçoamento das pastagens.
Demi usava uma saia nova cor mostarda com um par de botas apache com cadarço até a altura dos joelhos, e uma blusa estilo vaqueira. O cabelo castanho-avermelhado cascateava sobre os ombros, para variar, e o rosto ostentava uma quantidade suficiente de maquiagem para embelezá-lo. Compunha uma bela figura, e o interesse de Wilmet fazia eco com o de cada homem solteiro presente.
O ego em escombros de Demi se sentiu massageado. Ela sorria, conversava e ria quando deixaram o jantar. Sentia-se feliz e relaxada.
No entanto, aquele estado de espírito perdurou apenas até alcançarem a varanda da frente da casa, onde Wilmer se inclinou para lhe dar um beijo de boa-noite. Antes que os lábios do veterinário tocassem os dela, um frio e intratável J.A. surgiu de um canto, onde se encontrava sentado.
- Oh, olá, J.A. - cumprimentou J.A hesitante. Em seguida, escorregou uma das mãos pelo cabelo, dirigindo um olhar preocupado ao rosto repentinamente lívido de Demi. - Eu lhe telefonarei pela manhã. Boa noite!
Wilmer se precipitou para fora da varanda. Demi se deteve a observá-lo partir para não ter de encarar J.A. Pelo vislumbre que tivera dele, percebera que vestira um terno cinza e usava um Stetson perolado. A expressão era letal. A fumaça do cigarro que ele segurava entre os dedos lhe invadiu as narinas, enquanto Wilmer acenava e manobrava para fora do pátio.
- Onde esteve? - J.A. quis saber, com a voz grave acusadora.
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