Eles passaram pelos guardas da fronteira sem nenhum problema. O carro foi parado, mas Demi sabia por quê. O guarda, um homem baixo e gordo, avistara Blanda e perguntara a ela, e não a J.A., o que faziam em Juárez.
Empolgada com a atenção, Blanda atirou o cabelo para trás e, rindo, disse que iriam fazer compras. O guarda gesticulou para que seguissem em frente, com uma relutância lisonjeira, ainda devorando Blanda com o olhar, enquanto J.A. soltava uma risada abafada. Blanda adorava constatar que fizera uma conquista. Parecia gostar que J.A. soubesse que era capaz de atrair outros homens facilmente.
Observando aquela mulher, Demi poderia jurar que J.A. entendia muito bem a intenção de Blanda. Ele demostrava muito cinismo em relação às mulheres, como se lhes conhecessem o âmago e não se importasse nem um pouco. Relanceando o olhar a ele, ela viu aquele meio-sorriso amargo a lhe curvar os lábios sensuais. Antes que pudesse desviar os olhos, J.A. a surpreendeu a observá-la. Foi como ser atingida por um raio. Demi teve de se esforçar para virar o rosto.
J.A. dirigia, enquanto Blanda se inclinava para trás sobre o banco para conversar animadamente com Patrick. Demi fez um movimento negativo com a cabeça. Nem mesmo o pai era imune ao charme de Blanda. Patrick sorria de orelha a orelha.
O trajeto não era longo e, minutos depois, encontravam-se em Juárez. E foi apenas graças à experiência de J.A. que conseguiram se orientar. Juárez era problemática com um mapa, que dirá sem um.
A cidade era deliciosamente mexicana. Eles visitaram uma interminável fileira de lojas, e Blanda suplicou até que J.A. lhe comprasse um colar de turquesa caríssimo. Demi se agradaria com bem menos. Se ele tivesse lhe dado uma pedra que encontrasse no chão, dormiria com o presente sob o travesseiro pelo resto da vida. Mas seus gostos eram bem mais simples do que os de Blanda. Tudo o que desejava era J.A.
No fim da rua encontrava-se uma majestosa catedral e, próximo, ficava localizada uma pequena butique. Blanda soltou uma exclamação ao ver a vitrine e constatar que aceitavam seu cartão de crédito.
- Serão apenas algumas horas - disse ela a J.A., erguendo-se nas pontas dos pés para lhe beijar o rosto. - Demetria, quer vir comigo? - perguntou, sabendo muito bem que ela não tinha o menor interesse em roupas elegantes e que não possuía um cartão de crédito.
Demi nunca se afastara da pequena cidade em que cresceu, e Blanda sabia disso também.
- Não, obrigada - agradeceu ela em tom amável. - Prefiro fazer turismo.
- Ótimo - disse o pai. - Pode me fazer companhia. J.A. parece estar em outro mundo.
E de fato estava. Quando Demi percebeu onde aqueles olhos claros se encontravam cravados, sentiu um frio na barriga. J.A. refazia mentalmente tudo que fizera quando se embebedara naquela noite. Ele tinha certeza do que acontecera! Desviou o olhar do bar no fim da rua para a pequena capela, onde, embotado pelo álcool, a obrigara a se apresentar diante de um padre.
- Ora, ora, uma daquelas capelas matrimoniais - murmurou Patrick relanceando o olhar à filha. - Para um homem que não está interessado em se casar, parece fascinado por ter encontrado uma, não acha?
Demi teve mal pressentimento quando viu J.A. enfiar as mãos nos bolsos da calça e seguir na direção da capela. Ela se projetou para a frente, tentando lhe desviar a atenção em um gesto instintivo. Mas, quando o alcançou, alheia à expressão surpresa do pai, os dois mexicanos que a ajudaram a carregar J.A. para a picape naquela noite saíram da capela. Talvez fossem parentes do padre...
Não digam nada, não o reconheçam, por favor, rezou Demi, cruzando os dedos.
Mas os homens de fato o reconheceram e estamparam sorrisos largos no rosto.
- Felicitaciones - disseram rindo. - Como quiere usted vida conjugal, eh? Y alla esta su esposa! Hóla, señora, como 'sta?
- O quê? - disparou Patrick ao ouvir a conversa.
Demi enterrou a cabeça nas mãos.
- O que eles disseram? - indagou entre os dedos abertos.
- Eles o estão parabenizando pelo casamento! - Patrick não acrescentou mais nada.
Seguiu-se um diálogo em um espanhol fluente e, depois, um silêncio pesado. Segundos mais tarde, um furioso J.A. assomava diante dela. Segurando-a pelos ombros, ele a sacudiu, ignorando a perplexidade de Patrick.
- Que diabos eles quiseram dizer com isso? Por que estão me parabenizando por ter me casado? Você mentiu para mim! Nós nos casamos aqui, naquela noite, certo? Certo?!
- Está bem, sim - sussurrou Demi. - Eu não sabia que era um casamento válido - tentava explicar, os olhos enormes chorosos e angustiados. - Eu não sabia que era válido!
- Vocês estão casados?! - vociferou Patrick.
- Não por muito tempo. - J.A. afastou Demi de si, como se tocá-la lhe fizesse queimar as mãos. - Meu Deus! Que maneira medíocre, desprezível e ardilosa de conseguir um marido! Pegar um homem bêbado, arrastá-lo até uma capela matrimonial e depois manter segredo! Você sabia que eu jamais me casaria com uma maquiavélica simplória e roliça como você se eu estivesse sóbrio! Não é nem um pouco atraente, Demi, e seus modos e a maneira de se vestir se parecem mais com os de um homem do que de uma mulher. Não me surpreenderia se me dissesse que é você que oriente Wilmer quando o leva para a cama!
- J.A., por favor! - suplicou Demi, ciente da atenção que a voz alterada atraía na rua.
Só então, ele pareceu perceber que se encontravam em público.
- Vou buscar Blanda. Estamos partindo. Neste momento - disse ele a Demi. - Quanto mais rápido essa farsa terminar em uma anulação, melhor.
- Você o embebedou e se casou com ele?! - Patrick ficara muito abalado com a revelação.
- Ele se embebedou e ameaçou colocar nós dois em uma cadeia se eu não me casasse com ele - respondeu Demi arrasada. - Pensei que aquele casamento não tivesse validade em nenhum lugar, a não ser no México; do contrário, jamais teria concordado. Sabe como a justiça criminal é lenta nesta região. Poderíamos passar semanas ou meses na cadeia até conseguirmos sair...
- Eu sei disso! Mas o que ele quis dizer com você dormir com Wilmer?
- Eu não durmo com Wilmer. Apenas deixei que J.A. pensasse que... Bem, para lançar uma cortina de fumaça, acho eu. Pai, que confusão arranjei! Tinha as melhores intenções... e logo no dia do seu aniversário! - Demi cedeu ao pranto. - Eu deveria ter dito alguma coisa, mas estava assustada. Pensei poder conseguir uma anulação em segredo, mas o advogado que consultei disse que J.A. teria de saber...
Patrick a abraçou enquanto ela chorava, dando palmadas desajeitadas nas costas da filha até que um J.A. de olhos flamejantes se juntasse a eles com Blanda em seu encalço.
- O que aconteceu com Demi? - Blanda quis saber.
- Não pergunte - respondeu Patrick com semblante austero. - Temos de ir agora.
- Está bem. - Blanda deu de ombros, fitando Demi com curiosidade. - Deus! Você está passando mal?
- Se estiver, é porque merece - disse J.A. furioso. - Vamos.
Blanda não ousou questioná-lo. Demi chorava em silêncio, e Patrick se sentou, impotente, a seu lado, enquanto deixavam Juárez, entravam em El Paso e tomavam a estrada para o rancho.
J.A. se mostrou transtornado durante todo o trajeto de volta. Fumava em silêncio, deixando que Blanda tagarelasse até que se cansasse de não obter respostas e ligasse o rádio do carro.
Perdida nos próprios pensamentos, Demetria se recostou para trás no banco, com os olhos fechados, alheia à expressão preocupada estampada no rosto do pai.
Em vez de se dirigir ao rancho, J.A. parou no apartamento de Blanda, acompanhou-a até a porta e deixou-a lá sem dizer uma palavra. E permaneceu em silêncio durante todo o trajeto até em casa. Não dirigia em alta velocidade ou de modo descuidado. Demetria ficou admirada com o autocontrole dele. Mesmo furioso, como sabia que J.A. se encontrava naquele momento, ele nunca perdia o controle de ferro. E ela imaginou se algum dia havia perdido.
De volta ao rancho, J,A. se dirigiu ao estábulo assim que estacionou o carro, e Demi teve pena de qualquer alma desavisada que estivesse por lá. Quando enfurecido, J.A. era uma força incontrolável. Certamente, pretendia gastar um pouco de energia antes de voltar a confrontá-la. Nem ao menos podia culpá-lo por estar tão enraivecido. Deveria ter revelado tudo a ele desde o início. A culpa era sua.
- E se me contasse toda a história? - perguntou o pai enquanto Demi fazia o café, na cozinha.
E assim ela o fez. Detalhou tudo sobre a bebedeira anual de J.A. e a razão que a induzia, o modo como o deixara sóbrio - ou pensou que deixara -, o fato de tê-lo seguido até Juárez, que culminou com o casamento.
- A questão, papai, é que acho que J.A. é um homem de família rica, apesar do trabalho que executa aqui. Talvez ele esteja pensando que o manipulei de propósito para que se casasse comigo, movida por interesse financeiro.
- J.A. a conhece bem para julgá-la interesseira!
- Ele sabe que o rancho não está dando lucro, que não tenho um emprego e que meu futuro parece bastante incerto. Não está, mas é assim que parece. E tenho quase certeza de que J.A. sabe que me sinto atraída por ele.
- Atraída e perdidamente apaixonada? - brincou o pai.
Demi negou com a cabeça.
- Não. Graças a Deus ele não sabe disso. - Ela enfiou as mãos nos bolsos da calça comprida e deixou escapar um suspiro, os olhos vermelhos pelo choro. - Não é o fim do mundo. Podemos conseguir uma anulação com facilidade. Posso até mesmo arranjar um emprego e pagar as despesas jurídicas. Talvez algum dia ele me perdoe, mas no momento deve estar querendo me estrangular, e não o culpo. Espero apenas que J.A. não conte nada a Blanda. Não quero que ela sofra por isso.
- E quanto a você? - perguntou Ppatrick irritado. - Você está sofrendo com isso, e a culpa é dele. Se estivesse sóbrio...
- Pai, ele ama a esposa que morreu. Acho que ainda sofre por ela. Lembra-se de como se sentiu quando mamãe se foi?
Com um olhar distante, Patrick deixou escapar um suspiro.
- Sim, posso entender isso. Sua mãe era meu mundo. Nosso amor nasceu na infância, e vivemos juntos durante 22 anos. Seria impossível encontrar alguém que se comparasse a ela, por isso nunca pensei em me casar outra vez. Talvez J.A. sinta o mesmo.
- Imagino que sim.
O pai lhe deu um abraço afetuoso e a soltou.
- Tente não se torturar com isso. Tudo ficará bem. J.A. vai gastar um pouco de energia e recobrará o bom senso. Os dois conseguirão achar uma solução para o problema, espero. - Patrick brincou, soltando uma risada baixa; - Com a situação do jeito que está, preciso manter a mente de J.A focada nos negócios, com o devido respeito à situação.
- Nunca pensou em vender quotas do rancho?
- Sim, pensei. Ou arranjar um sócio - acrescentou o pai, lhe relanceando o olhar. - Não se importaria se eu fizesse isso?
- Claro que não. Também não quero perder a propriedade - respondeu ela com voz suave. - Faça o que for necessário.
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